O neurocirurgião Dr. Mateus Tomaz explica as diferenças entre dores musculares, viscerais e compressões neurais, detalha o perigo de manipulações físicas em crises e orienta sobre o rastreio preventivo.
Imagem Ilustrativa

A dor nas costas — cientificamente denominada dorsalgia ou lombalgia, a depender da região anatômica afetada — configura uma das queixas médicas mais prevalentes no mundo, motivando picos de absenteísmo no mercado de trabalho e lotando consultórios. Segundo o neurocirurgião Dr. Mateus Tomaz, membro titular da Sociedade Brasileira de Neurocirurgia (SBN), a recorrência desse sintoma induz os pacientes ao erro de presumir que qualquer desconforto dorsal origine-se obrigatoriamente de um desgaste ósseo ou discal na coluna vertebral. Na realidade, a região do dorso abriga uma complexa sobreposição de músculos, ligamentos, nervos e órgãos viscerais, tornando o diagnóstico diferencial uma etapa mandatória para a eficácia terapêutica.

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A grande maioria das dores agudas nas costas possui etiologia puramente muscular (miofascial). Esse quadro decorre de erros ergonômicos crônicos no ambiente de trabalho, como passar horas excessivas na mesma posição diante do computador, gerando sobrecarga postural e fadiga nas fibras musculares. Embora a dor muscular seja autolimitada na maior parte dos casos — resolvendo-se de forma espontânea com repouso e correção de hábitos —, o surgimento de dores persistentes e de início súbito serve como um sinal de alerta do corpo. O limiar de cronicidade é estabelecido quando a dor ultrapassa o período de duas a três semanas, indicando que o incômodo deixou de ser uma contratura comum e passou a configurar uma lesão estrutural ou inflamação visceral subjacente.

Diagnóstico diferencial: o Sinal de Giordano e as dores viscerais

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Para isolar a causa exata do sofrimento do paciente, o neurocirurgião realiza testes clínicos específicos na propedêutica de consultório. Uma das principais distinções necessárias é separar a dor mecânica da coluna da dor de origem urológica ou nefrológica (visceral).

 

Os cálculos renais (pedras nos rins) e as infecções urinárias altas (pielonefrites) manifestam-se clinicamente como uma dor referida na região lombar baixa, mimetizando perfeitamente uma crise de coluna.

 

A positividade do Sinal de Giordano direciona o paciente imediatamente para o manejo nefrológico ou exames laboratoriais de urina e ultrassonografia de vias urinárias, poupando o indivíduo de tratamentos ortopédicos ineficazes.

Além do trato renal, outras estruturas musculoesqueléticas profundas podem confundir o paciente. É o caso da Síndrome do Piriforme, uma condição onde o músculo piriforme — localizado profundamente na região do glúteo — sofre uma contratura severa e hipertrofia. Como o nervo ciático passa anatomicamente por dentro ou por baixo desse ventre muscular, a tensão no glúteo comprime o nervo de forma extrínseca. O paciente experimenta uma dor irradiada para a parte de trás da coxa e da perna, confundindo o quadro com uma hérnia de disco lombar, embora a coluna vertebral esteja perfeitamente saudável.

 

Os perigos da manipulação física e massagens durante a crise

 

Diante de dores agudas nas costas, é comum que as pessoas busquem alívio imediato por meio de massagens relaxantes, terapias manuais vigorosas ou sessões de quiropraxia sem diagnóstico prévio. O Dr. Mateus Tomaz emite um alerta rigoroso sobre os perigos biológicos dessa conduta sem a devida triagem por exames de imagem, como a ressonância magnética:

 

  • • Piora do Processo Inflamatório: Se a dor for decorrente de uma inflamação aguda nas articulações facetárias (artrose da coluna), a manipulação ou pressão mecânica forte sobre o local exacerba o estresse tecidual, intensificando a dor nas horas seguintes.

 

  • • Riscos na Hérnia de Disco Exclusa: Nos casos em que o disco intervertebral já sofreu uma ruptura e o núcleo pulposo se movimentou (hérnia de disco extrusa), forças de tração ou rotação abruptas na coluna podem deslocar o fragmento herniado ainda mais para dentro do canal vertebral. Isso aumenta a compressão mecânica sobre as raízes nervosas, transformando uma dor controlável em um déficit neurológico grave.

 

Portanto, em fases de crise aguda ou dor persistente, tratamentos manipulativos são contraindicados. A liberação para terapias manuais só deve ocorrer após a estabilização clínica e a confirmação diagnóstica da integridade estrutural da coluna.

 

Estilo de vida integrativo e os critérios de urgência neurológica

 

A prevenção e a desinflamação do sistema musculoesquelético exigem uma abordagem baseada em um estilo de vida integrativo. O manejo da dor crônica na coluna não se restringe à prática isolada de atividade física; depende do equilíbrio entre uma alimentação de perfil anti-inflamatório (reduzindo açúcares e ultraprocessados que elevam citocinas inflamatórias no sangue) e uma boa higiene do sono, essencial para a reparação tecidual das articulações e relaxamento muscular profundo. Na prática esportiva, o acompanhamento preventivo com o neurocirurgião atua em sinergia com o profissional de educação física, ditando os limites biomegânicos de carga e orientando a execução de movimentos para blindar a coluna contra lesões e estiramentos por repetição.

 

Por fim, o paciente deve abandonar a automedicação e buscar atendimento médico de emergência caso a dor nas costas venha acompanhada dos chamados sinais de urgência neurológica (red flags). Esses sintomas indicam que um nervo ou a própria medula espinhal estão sofrendo compressão isquêmica severa, exigindo intervenção imediata para evitar sequelas motoras definitivas:

 

  • • Perda de força muscular progressiva ou súbita em uma ou ambas as pernas (como o pé fraquejar ao caminhar ou falsear o joelho);

 

  • • Perda de sensibilidade tátil ou dolorosa nos membros inferiores, ou anestesia na região genital (anestesia em sela);

 

 

  • • Alterações no controle urinário ou fecal, manifestadas por retenção súbita da urina ou incontinência esfincteriana (sinal clássico da Síndrome da Cauda Equina).

 

A medicina moderna prioriza técnicas minimamente invasivas de alta precisão para descomprimir estruturas neurais e devolver a mobilidade, garantindo que o tratamento atinja a real raiz do problema de forma humanizada e segura.

 

Perguntas Frequentes sobre Dor nas Costas (FAQ)

 

Como o “Sinal de Giordano” ajuda o médico a saber se a dor é no rim ou na coluna? O médico realiza uma percussão suave com o punho nas costas do paciente (na região dos rins). Se o paciente sentir uma dor aguda em forma de choque, o teste é positivo, indicando que a causa é uma inflamação renal ou cálculo, e não um problema de coluna.

 

O que é a Síndrome do Piriforme e por que ela imita a dor ciática? O piriforme é um músculo localizado no glúteo. Como o nervo ciático passa bem próximo a ele, quando esse músculo sofre uma contratura ou inflamação, ele aperta o nervo, gerando uma dor que irradia pela perna e que parece vir de uma hérnia de disco.

 

Por que fazer massagem forte durante uma crise de dor nas costas pode ser perigoso? Se você estiver com uma hérnia de disco, movimentos de rotação ou pressões fortes nas costas podem deslocar o pedaço de disco inflamado ainda mais para dentro do canal nervoso, aumentando a compressão do nervo e piorando gravemente a dor.

 

Qual o tempo limite para esperar uma dor nas costas passar antes de ir ao médico? O critério de cronicidade indica que dores que persistem por mais de duas a três semanas devem ser investigadas por um especialista. O uso prolongado de analgésicos apenas mascara o sintoma e pode atrasar o diagnóstico de lesões estruturais.

 

Quais sintomas associados à dor nas costas exigem ida imediata ao pronto-socorro? Você deve buscar atendimento urgente se a dor vier acompanhada de perda de força nas pernas (dificuldade para andar), formigamentos e dormências contínuas, ou perda de controle para urinar ou defecar (retenção ou incontinência).

Fonte:

 

Dr. Mateus Tomaz Augusto – Neurocirurgião

 

CRM-SP: 158.815 | RQE: 73.095

 

Membro Titular da Sociedade Brasileira de Neurocirurgia (SBN). Especialista em cirurgia e reabilitação avançada da coluna vertebral, dedica sua prática clínica ao diagnóstico de alta precisão de dores crônicas e ao tratamento de patologias complexas do sistema nervoso e musculoesquelético, priorizando procedimentos minimamente invasivos com foco no cuidado humanizado e no restabelecimento da mobilidade do paciente.

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