A dor é uma experiência profundamente individual, mas que jamais ocorre em um vácuo social ou biológico. Fatores como cultura, gênero, jornada de trabalho, vulnerabilidade socioeconômica, crenças e o grau de acesso aos serviços de saúde modulam diretamente como o sofrimento físico é percebido, comunicado, legitimado e tratado no cotidiano clínico.
Para aprofundar essa reflexão e entender os vieses que ainda atravessam a medicina diagnóstica, conversei com a Dra. Juliana Andrade, PhD, bióloga, pesquisadora experimental e clínica em cefaleias.
O impacto da cultura na expressão do sofrimento físico
A dor possui mecanismos neurobiológicos universais, mas a forma de buscar auxílio e enfrentar os sintomas varia conforme o ambiente sociocultural. Enquanto alguns indivíduos recorrem de imediato ao atendimento médico especializado, outros buscam suporte na rede familiar, em práticas tradicionais ou na religiosidade.
De acordo com a Dra. Juliana Andrade, compreender esses diferentes itinerários terapêuticos é um passo fundamental para tornar o cuidado médico mais integrativo, empático e resolutivo.
A dor feminina, a enxaqueca e os vieses de diagnóstico
A enxaqueca é uma doença neurológica incapacitante que afeta desproporcionalmente a população feminina. Contudo, para além da predisposição hormonal e biológica, as desigualdades de gênero e a sobrecarga de trabalho impactam diretamente o prognóstico das pacientes.
- • Subestimação e Estigmatização: Diversos estudos apontam que relatos de dor feitos por mulheres são mais frequentemente estigmatizados no ambiente de saúde, sendo por vezes reduzidos de forma simplista a fatores emocionais ou “estresse”;
- • Desigualdade no Acesso e Qualidade de Vida: Duas pacientes com a mesma frequência de crises diárias vivem realidades abissalmente distintas a depender do nível de renda, da rede de apoio e da possibilidade de interromper suas rotinas durante uma crise álgica;
- • Acesso ao Especialista: A pesquisa científica moderna precisa mapear não apenas as métricas de dor, mas investigar quem realmente consegue acessar diagnósticos de precisão e tratamentos inovadores.
Autonomia e a urgência de uma ciência que saiba ouvir
A discussão sobre a dor conecta-se diretamente à autonomia feminina e à legitimidade das suas escolhas. A conquista do direito de decisão em diferentes esferas da vida exige, de igual modo, que a dor declarada pela mulher seja ouvida e respeitada com rigor clínico.
Nas palavras da Dra. Juliana Andrade: “Se reconhecemos seu direito de dizer ‘esta é a minha escolha’, também precisamos saber escutá-la quando diz ‘esta é a minha dor’. A ciência não precisa falar pelas mulheres. Precisa aprender a ouvi-las melhor.”

