Durante muito tempo, a yoga foi vista apenas como uma prática voltada ao relaxamento e à flexibilidade. Hoje, porém, evidências científicas mostram que ela desempenha um papel importante no tratamento da dor crônica, da ansiedade, da depressão e dos distúrbios do sono quando inserida dentro de uma abordagem multidisciplinar.
Para entender essa interface entre a ciência e uma prática milenar, conversei com Cristian Firmino Campos, instrutor e praticante de yoga desde 2019. Como médico neurocirurgião, especialista em dor e, mais recentemente, também praticante da modalidade, confesso que essa aproximação aconteceu primeiro pela ciência e depois pela experiência.
“Sempre enxerguei a yoga sob a ótica das evidências científicas. Nos últimos meses, ao iniciar minha própria prática, passei a compreender algo que os estudos já demonstravam: ela trabalha consciência corporal, respiração, atenção plena e uma capacidade de desacelerar o cérebro que muitas vezes está em estado permanente de alerta.”

O cérebro sensibilizado e o ciclo da dor crônica
Segundo Cristian, compreender a dor crônica exige entender o funcionamento do próprio cérebro. Quando a dor permanece por meses ou anos, ocorre um fenômeno conhecido como sensibilização central, em que o sistema nervoso passa a amplificar os sinais dolorosos. Paralelamente, surgem padrões mentais negativos que reforçam o sofrimento.
“A pessoa deixa de perceber apenas a dor física e passa a construir uma identidade baseada nela. Frases como ‘meu corpo não presta’ ou ‘nunca mais vou melhorar’ fortalecem esse ciclo”, aponta o instrutor.
Na visão de Cristian, a yoga atua justamente rompendo esse padrão. Por meio da respiração consciente, da meditação e dos movimentos adaptados, o praticante desenvolve maior capacidade de observar seus pensamentos e suas emoções, processo conhecido como metacognição.
Como especialista em dor, essa explicação conversa diretamente com a prática clínica diária:
“Hoje sabemos que dor crônica não significa apenas um tecido machucado. Existe uma reorganização dos circuitos cerebrais responsáveis pela percepção da dor. O tratamento moderno precisa atuar também sobre esse cérebro sensibilizado, reduzindo o estado constante de ameaça em que ele permanece.”
O poder dos pranayamas e o sistema nervoso
Fatores como ansiedade, estresse e noites mal dormidas agravam intensamente a dor. Cristian explica que os exercícios respiratórios os chamados pranayamas estimulam o sistema nervoso parassimpático e favorecem a ativação do nervo vago, contribuindo para reduzir a resposta exagerada ao estresse.
Esse mecanismo ajuda a diminuir a tensão muscular, melhora a qualidade do sono e reduz os níveis de cortisol, criando um ambiente biológico mais favorável ao controle da dor. As evidências científicas reforçam essa percepção, com estudos demonstrando benefícios expressivos para pacientes com fibromialgia, lombalgia e cervicalgia, incluindo redução da intensidade dolorosa, melhora funcional e diminuição da fadiga.
“A yoga não substitui medicamentos, fisioterapia ou procedimentos quando eles são necessários. Mas ela pode potencializar os resultados porque atua exatamente sobre fatores decisivos na manutenção da dor: o estresse, o medo do movimento, a ansiedade e a qualidade do sono.”
Combatendo a cinesiofobia: a importância do movimento
Outro mito frequentemente enfrentado nos consultórios é acreditar que sentir dor significa que é preciso permanecer em repouso absoluto. Para Cristian, esse pensamento alimenta a chamada cinesiofobia (o medo de se movimentar).
A proposta da yoga é justamente o oposto: adaptar os movimentos à realidade de cada pessoa.
- • Adaptação respeitosa: O objetivo nunca é colocar o corpo em uma postura perfeita, mas adaptar a postura aos limites do praticante.
- • Resgate da confiança: O cérebro precisa reaprender que o movimento não significa necessariamente perigo, sendo este um dos pilares fundamentais da reabilitação moderna.
Ao lado do acompanhamento médico, da fisioterapia e da psicologia, a yoga passa a ocupar um espaço cada vez mais relevante na medicina integrativa.
“Ainda sou um praticante iniciante de yoga, mas já consigo perceber mudanças importantes na forma de respirar, de desacelerar e de lidar com o estresse. Isso reforça uma convicção que tenho como médico: cuidar do cérebro é muito mais do que prescrever medicamentos. É ensinar o paciente a construir novos hábitos capazes de modular o funcionamento do sistema nervoso.”
Neste Julho Verde, mês dedicado à conscientização sobre a dor crônica, a principal mensagem é clara: nenhuma terapia isolada resolve um problema tão complexo. A ciência demonstra que os melhores resultados surgem quando diferentes profissionais trabalham em conjunto, colocando o paciente no centro do cuidado. Nesse contexto, a yoga deixa de ser apenas uma atividade física para integrar uma estratégia ampla de reabilitação e recuperação da qualidade de vida.
