Psiquiatra explica como reconhecer sinais de alerta, conversar sem julgamentos e buscar ajuda diante de uma crise emocional.
Imagem Ilustrativa

Celebrado em 10 de setembro, o Dia Mundial de Prevenção do Suicídio chama a atenção para um tema que ainda é cercado por medo, estigma e desinformação. Entre as principais mensagens da campanha está a importância de criar espaços seguros para que pessoas em sofrimento emocional possam falar sobre o que estão vivendo e encontrar apoio.

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Segundo a médica psiquiatra Dra. Karine Cunha, especialista pela USP e com mais de 25 anos de experiência em atendimentos psiquiátricos, conversar sobre suicídio de maneira responsável não estimula esse comportamento. Ao contrário, a abertura para o diálogo pode ajudar a reduzir o isolamento e facilitar a procura por ajuda.

“Falar abertamente sobre suicídio, de forma responsável, não aumenta o risco. Perguntar diretamente e abrir espaço para uma conversa pode permitir que a pessoa se sinta compreendida e encontre uma possibilidade de ajuda”, explica.

Sinais de alerta não devem ser ignorados

Um único comportamento isolado não significa necessariamente que alguém esteja em risco de suicídio. Porém, mudanças importantes e persistentes, especialmente quando vários sinais aparecem ao mesmo tempo, merecem atenção.

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Entre os sinais de sofrimento emocional intenso estão tristeza profunda, desesperança, isolamento repentino de familiares e amigos, perda de interesse por atividades antes prazerosas, irritabilidade ou ansiedade intensas, alterações importantes no sono e no apetite e queda acentuada no desempenho profissional ou escolar.

Sentimentos persistentes de culpa, inutilidade ou a percepção de ser um peso para outras pessoas também precisam ser observados.

Alguns comportamentos podem representar um alerta ainda maior, como falar repetidamente sobre morte, dizer que não vê mais sentido na vida, demonstrar desejo de desaparecer ou afirmar que outras pessoas estariam melhor sem a sua presença.

Despedidas incomuns, mudanças bruscas de comportamento e histórico anterior de tentativa de suicídio também exigem atenção.

“O mais importante é perceber se houve uma mudança significativa em relação ao comportamento habitual daquela pessoa e entender o contexto em que ela está vivendo”, afirma a psiquiatra.

Perguntar diretamente pode ajudar

Um dos maiores receios dos familiares e amigos é acreditar que falar sobre suicídio poderia “colocar uma ideia na cabeça” de alguém que está sofrendo.

De acordo com a Dra. Karine, esse é um mito que pode dificultar a prevenção.

Quando existem sinais importantes, a conversa pode começar de maneira simples, demonstrando preocupação e disponibilidade para ouvir.

Frases como “percebi que você não está bem e estou preocupado com você” podem abrir espaço para a pessoa falar sobre o que sente.

Quando necessário, também é possível perguntar diretamente se ela tem pensado em morrer ou em tirar a própria vida.

“Perguntar de maneira calma e acolhedora não aumenta o risco. Em alguns casos, pode até diminuir a ansiedade porque a pessoa percebe que existe alguém disposto a escutar sobre o seu sofrimento”, explica.

Escutar pode ser mais importante do que aconselhar

Diante de alguém em sofrimento emocional, familiares e amigos muitas vezes tentam encontrar imediatamente uma solução ou uma frase que faça a pessoa se sentir melhor.

Mas, segundo a especialista, não é necessário ter a resposta perfeita.

Escutar com atenção, sem interromper, julgar ou minimizar o sofrimento pode ser mais importante.

Frases como “eu estou aqui com você”, “obrigado por ter me contado” e “vamos procurar ajuda juntos” demonstram acolhimento e disponibilidade.

Por outro lado, algumas respostas aparentemente bem-intencionadas podem aumentar a sensação de incompreensão.

Expressões como “você tem tudo para ser feliz”, “isso é falta de fé”, “tem gente passando por coisa pior”, “você precisa ser forte” ou “isso é só uma fase” devem ser evitadas.

“O sofrimento daquela pessoa precisa ser levado a sério. Comparar problemas, responsabilizar ou dizer simplesmente que tudo vai passar pode gerar ainda mais culpa e isolamento”, ressalta Karine.

Amigos e familiares não precisam resolver tudo sozinhos

A rede de apoio é fundamental, mas familiares e amigos não devem assumir o papel de terapeutas.

O objetivo principal é acolher, proteger e ajudar a pessoa a chegar ao acompanhamento adequado.

Também não é recomendado prometer segredo caso alguém revele intenção de tirar a própria vida. Quando existe risco à segurança, outras pessoas de confiança e profissionais de saúde precisam ser envolvidos.

Uma orientação simples para quem está próximo é seguir a sequência: perguntar, ouvir, acolher, proteger, encaminhar e acompanhar.

Suicídio não tem uma única causa

Outro ponto importante destacado pela psiquiatra é que o suicídio é um fenômeno multifatorial.

Isso significa que dificilmente existe um único acontecimento capaz de explicar uma crise.

Transtornos depressivos estão entre as condições mais relacionadas ao aumento do risco, especialmente quando há desesperança intensa, perda de interesse pelas atividades cotidianas e piora importante do funcionamento.

Transtorno bipolar, transtornos relacionados ao uso de álcool e outras substâncias, quadros psicóticos, transtornos relacionados a traumas e determinados transtornos de personalidade também podem aumentar a vulnerabilidade.

Transtornos de ansiedade podem contribuir principalmente quando aparecem associados à depressão, desesperança ou outros fatores de risco.

Mas ter um diagnóstico psiquiátrico não significa que a pessoa apresentará comportamento suicida. Da mesma forma, não ter um diagnóstico não elimina a possibilidade de risco.

Problemas de vida também podem aumentar a vulnerabilidade

Situações de grande impacto emocional podem contribuir para uma crise.

Términos de relacionamento, conflitos familiares, luto, violência doméstica, bullying e isolamento social estão entre os acontecimentos que merecem atenção.

Desemprego, dificuldades financeiras importantes, instabilidade de moradia e dificuldades de acesso aos serviços de saúde também podem aumentar a vulnerabilidade.

Doenças graves, condições incapacitantes, dor crônica e perda de autonomia são outros fatores que podem estar associados ao sofrimento emocional.

“Não devemos procurar uma única causa. É preciso compreender quais fatores estão presentes, quais estão ativos naquele momento e quais mecanismos de proteção devem ser fortalecidos”, afirma Karine.

Vínculos e tratamento podem funcionar como proteção

Além de avaliar os fatores de risco, é importante compreender o que pode ajudar uma pessoa a atravessar momentos difíceis.

Ter vínculos afetivos e pessoas de confiança com quem conversar é um importante fator de proteção, principalmente porque reduz o isolamento.

A capacidade de pedir ajuda, resolver problemas, regular emoções e desenvolver estratégias para enfrentar situações de crise também podem ajudar.

Tratamento psicológico e psiquiátrico adequado é fundamental quando existem transtornos mentais ou sofrimento emocional importante.

Projetos pessoais, responsabilidades, atividades significativas e sentimento de pertencimento também podem representar razões importantes para continuar buscando caminhos diante das dificuldades.

Como tratar uma pessoa em crise?

Durante uma crise suicida, o tratamento deve considerar dois momentos: estabilizar a situação imediata e construir um acompanhamento contínuo.

O primeiro passo é realizar uma avaliação clínica e psiquiátrica para compreender a intensidade dos pensamentos suicidas, possíveis alterações de humor, impulsividade, sintomas psicóticos, uso de substâncias e fatores que possam ter desencadeado ou agravado o quadro.

O cuidado pode envolver acolhimento e supervisão próxima, participação de familiares ou pessoas de confiança, psicoterapia e tratamento de transtornos psiquiátricos associados.

Medicamentos também podem ser utilizados quando indicados pelo psiquiatra, de acordo com o diagnóstico e os sintomas apresentados.

Outro recurso importante é estabelecer um plano de segurança e acompanhamento, definindo quais pessoas e serviços devem ser procurados caso o sofrimento volte a aumentar.

“A avaliação do risco precisa ser repetida porque ele pode mudar rapidamente. E a melhora da crise não significa que o tratamento terminou”, alerta a especialista.

Quando é necessário buscar atendimento de urgência?

Algumas situações exigem atendimento imediato.

Quando a pessoa manifesta intenção atual de morrer, não consegue garantir a própria segurança, apresenta comportamento muito impulsivo ou desorganizado, está gravemente agitada, apresenta sintomas psicóticos ou teve uma tentativa de suicídio, a situação deve ser tratada como emergência.

Uma rápida piora do estado mental acompanhada por pensamentos suicidas também exige avaliação urgente.

Nessas situações, a pessoa não deve ser deixada sozinha.

É importante procurar uma UPA, pronto-socorro, hospital ou serviço de emergência. Em uma situação de perigo imediato, o SAMU pode ser acionado pelo telefone 192.

O Centro de Valorização da Vida (CVV) oferece apoio emocional gratuito pelo telefone 188, 24 horas por dia. O serviço funciona como espaço de escuta e acolhimento, mas não substitui um atendimento médico de emergência quando existe risco imediato.

A necessidade de internação psiquiátrica deve ser avaliada individualmente e pode ser considerada quando existe risco elevado ou quando não é possível garantir a segurança da pessoa fora de um ambiente de tratamento intensivo.

O cuidado deve continuar depois da crise

A redução dos pensamentos suicidas não significa que o problema tenha sido completamente resolvido.

É justamente após uma crise que o acompanhamento contínuo se torna essencial.

O tratamento pode envolver psiquiatra, psicoterapia, familiares, rede de apoio e diferentes serviços de saúde, dependendo da gravidade e das necessidades de cada pessoa.

Na rede pública, o acompanhamento pode ocorrer em Unidades Básicas de Saúde (UBS), Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) e outros serviços da Rede de Atenção Psicossocial.

“Não é necessário esperar uma tentativa de suicídio ou uma crise mais grave para procurar ajuda. Quanto mais cedo reconhecemos mudanças importantes de comportamento e sinais de desesperança, maior a oportunidade de prevenção”.

Para a Dra. Karine, o principal recado da prevenção é substituir o silêncio e o julgamento por atenção e acolhimento.

“Falar sobre suicídio não incentiva o suicídio. Falar com acolhimento pode abrir uma porta para que alguém peça ajuda.”

Fonte:

 

Dra. Karine Cunha – Psiquiatra

CRM-SP: 97264 | RQE: 43461

Especialista pela USP e pós-graduada em Psiquiatria da Infância e Adolescência pelo Instituto Israelita de Ensino e Pesquisa Albert Einstein, Dra. Karine Cunha possui mais de 25 anos de experiência em atendimentos psiquiátricos. Atua com crianças a partir de 5 anos, adolescentes, adultos e idosos, com experiência em transtornos do humor, transtornos ansiosos, compulsão alimentar, transtornos psicóticos, TDAH e Transtorno do Espectro Autista (TEA).

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