As doenças cardiovasculares, como o infarto agudo do miocárdio e o Acidente Vascular Cerebral (AVC), permanecem no topo das principais causas de mortalidade no Brasil e no mundo. O grande perigo dessas patologias reside em sua fisiopatologia: a aterosclerose o acúmulo de placas de gordura (ateromas) nas artérias é uma doença crônica, progressiva e estritamente silenciosa. Segundo o Marcelo Gonçalves, diretor técnico da Winer Lab, o processo de formação dessas placas pode iniciar-se ainda na primeira década de vida, tornando os exames laboratoriais preventivos a única ferramenta capaz de antecipar e evitar desfechos fatais.
O rastreio laboratorial tradicional é feito por meio do lipidograma, que mensura o colesterol total, os triglicérides e as frações clássicas HDL (colesterol “bom”, de alta densidade) e LDL (colesterol “ruim”, de baixa densidade). Contudo, a medicina laboratorial evoluiu para investigar casos que intrigavam os especialistas: cerca de 15% a 20% das pessoas que sofrem infartos apresentam níveis de colesterol considerados normais nos exames convencionais. A resposta para essa lacuna diagnóstica está na genética e na análise das apolipoproteínas.
A Genética do Infarto: Lipoproteína e Apolipoproteínas
O colesterol, por ser uma molécula de gordura, não se dilui na água (que compõe 93% do sangue). Para circular, ele precisa ser “embalado” por lipoproteínas. A análise detalhada dessas estruturas revela o verdadeiro grau de risco de obstrução arterial do paciente.
Para ilustrar a importância da ApoB, o especialista usa a analogia do tamanho das partículas: um paciente pode ter um volume total de LDL de 115 mg/dL composto por uma única partícula grande (menos perigosa), enquanto outro pode ter os mesmos 115 mg/dL divididos em 10 partículas pequenas e densas (altamente aterogênicas e penetrantes nas artérias). A dosagem da ApoB identifica esse segundo paciente, que requer tratamento agressivo apesar do “volume” total parecer normal.
Medicina Personalizada e as Novas Diretrizes (2025)
Os exames avançados de apolipoproteínas já foram incorporados às novas diretrizes da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC). O documento abandona o conceito de um “valor normal universal” para o colesterol, adotando uma abordagem de medicina personalizada baseada na estratificação de risco individual, dividida em cinco categorias: risco baixo, intermediário, alto, muito alto e extremo.
Enquanto um paciente de baixo risco pode tolerar um nível de LDL de até 115 mg/dL apenas com ajustes de estilo de vida (dieta saudável e exercícios), um paciente de alto ou extremo risco (especialmente com histórico familiar genético) tem metas muito mais rígidas, necessitando manter o LDL abaixo de 70 ou até 50 mg/dL, o que geralmente exige o uso diário e contínuo de medicações seguras, como as estatinas.
Perguntas Frequentes (FAQ)
Por que pessoas com colesterol normal sofrem infartos?
Isso ocorre devido a fatores genéticos invisíveis no lipidograma comum. Cerca de 15% a 20% das pessoas infartam mesmo com LDL normal porque possuem níveis elevados de Lipoproteína (a) ou partículas pequenas e densas de LDL (identificáveis pela Apolipoproteína B), que são altamente obstrutivas.
O que é Lipoproteína (a)?
É uma molécula de transporte de colesterol cuja quantidade no sangue é determinada pela genética da pessoa, e não pelo seu estilo de vida. Altos níveis indicam forte risco cardiovascular hereditário.
Qual é o nível normal de colesterol LDL?
Com as novas diretrizes da Sociedade Brasileira de Cardiologia, não existe um valor único normal. O limite ideal depende do grupo de risco do paciente (que vai de baixo a extremo). O que é normal para uma pessoa pode ser perigoso para outra com histórico familiar.
O SUS ou os convênios cobrem os exames de Lipoproteína (a) e Apolipoproteínas?
Esses exames complementares ainda não constam na tabela rotineira do SUS. Na saúde suplementar, a cobertura pelos planos de saúde depende da justificativa clínica e da classificação de risco atestada pelo médico solicitante. Em laboratórios particulares, são testes acessíveis feitos em equipamentos comuns de bioquímica.
Fonte:
Marcelo Gonçalves – Diretor Técnico da Winer Lab
Diretor técnico da Winer Lab. Especialista no diagnóstico laboratorial avançado de dislipidemias, focando na estratificação de risco cardiovascular através de marcadores genéticos e lipoproteicos, alinhados às diretrizes atualizadas da Sociedade Brasileira de Cardiologia.




