“Quando o médico indica psicoterapia para tratar sua dor, ele não está dizendo que ela é imaginária. Está reconhecendo que você é muito mais do que o lugar onde dói.”
A dor não surge nem se restringe ao corpo. Para milhões de pessoas que convivem com a dor crônica, a experiência diária ultrapassa o desconforto físico e passa a comprometer o sono, a vida profissional, os relacionamentos afetivos e a própria identidade. Contudo, persiste no senso comum um grande preconceito: afinal, o encaminhamento psicológico significa que a dor é “invenção da cabeça”?
No Mês de Conscientização da Dor Crônica, reforço que reconhecer os fatores emocionais não é negar a lesão biológica, mas compreender a neurobiologia integrativa do sistema nervoso:
A dor é uma experiência real, produzida e modulada pelo sistema nervoso, que envolve mecanismos biológicos, psicológicos e sociais. Quando encaminhamos um paciente para a psicoterapia, não estamos dizendo que sua dor está apenas na cabeça. Estamos reconhecendo que o sofrimento humano não pode ser dividido em partes isoladas.
Para aprofundar essa discussão, convidei a psicóloga clínica Gabriella Castro, especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC).
Exames normais não significam ausência de dor
Um dos maiores dramas vivenciados pelo paciente com dor crônica é a falta de validação do próprio sofrimento. É comum passar por dezenas de consultórios e realizar exames de imagem que não justificam a intensidade dos sintomas sentidos na pele.
A psicóloga Gabriella Castro esclarece que a ausência de um achado estrutural grave na ressonância não invalida o relato do paciente:
“É importante começar esclarecendo que a dor é real, mesmo quando não conseguimos identificar uma causa que explique completamente sua intensidade. A dor crônica envolve mecanismos físicos, emocionais e sociais que interagem entre si. Estresse, medo, ansiedade e traumas passados alteram o processamento dos estímulos dolorosos no cérebro.”
Complemento que o sistema nervoso periférico e central pode desenvolver a sensibilização central um estado em que o “alarme” da dor permanece ligado e amplificado mesmo após a cicatrização do tecido inicial.
O ciclo de medo e evitação (Kinesiofobia) e a TCC
Sentir dor ao realizar um determinado movimento (como caminhar ou levantar um peso) faz com que a pessoa passe a evitar a atividade física por medo de agravar o quadro. Com o tempo, essa evitação causa atrofia muscular, perda de condicionamento e isolamento social, retroalimentando o sofrimento.
A Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) e a Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT) atuam desfazendo esses pensamentos disfuncionais:
- • Ressignificação de Pensamentos: Identificar padrões catastróficos (“nunca mais vou andar sem dor”) e substituí-los por metas reais de enfrentamento;
- • Aceitação Ativa (ACT): Aceitar a dor não é conformar-se ou desistir do tratamento, mas parar de paralisar a vida enquanto se busca a recuperação;
- • Retomada Gradual: Reorganizar a rotina e expor-se gradualmente ao movimento para reeducar os circuitos cerebrais.
Neuroplasticidade: o cérebro aprende novas respostas
A capacidade do cérebro de criar novas conexões sinápticas e reestruturar seus caminhos neurais conhecida como neuroplasticidade é a base científica para a melhora com a psicoterapia.
“A neuroplasticidade nos mostra que o sistema nervoso tem capacidade de adaptação. Com o tratamento adequado, podemos favorecer novas formas de responder à dor, ao medo e ao estresse, sempre respeitando os limites físicos”, explica Gabriella.
A dor crônica modifica a forma como a pessoa se vê, transformando alguém ativo em um “paciente em tempo integral”. A psicoterapia acolhe essa perda de identidade, fortalece a autoestima e ajuda a reconstruir papéis familiares e profissionais.
O cuidado multidisciplinar como caminho
A abordagem moderna no tratamento da dor não busca apenas diminuir números em uma escala de 0 a 10, mas devolver ao ser humano a sua dignidade, autonomia e esperança:
- • Medicina da Dor: Mapeia os mecanismos neurobiológicos e define condutas farmacológicas ou intervenções minimamente invasivas;
- • Fisioterapia e Reabilitação: Trabalha o fortalecimento muscular e a mobilidade;
- • Psicologia Clínica: Trata o estresse, a ansiedade, a depressão secundária e o medo do movimento;
- • Nutrição: Modula a inflamação sistêmica e a saúde metabólica.
A dor pode fazer parte do capítulo atual da vida de uma pessoa, mas jamais precisa escrever sozinha o restante da sua história.
Gabriella Castro: Psicóloga clínica com atuação fundamentada na Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) e na Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT).
