A psicóloga hospitalar Bárbara Bastoni analisa as implicações psíquicas das Doenças Inflamatórias Intestinais (DII), o estigma do uso de bolsas de ostomia e o papel do acompanhamento psicológico na adaptação do paciente.
Imagem Ilustrativa

As Doenças Inflamatórias Intestinais (DII), representadas predominantemente pela Doença de Crohn e pela Retocolite Ulcerativa, configuram condições autoimunes crônicas do trato gastrointestinal. Para além dos episódios clínicos de dor abdominal, diarreia crônica e sangramento digestivo, essas patologias impõem um custo psicológico severo. Segundo a psicóloga hospitalar Bárbara Bastoni, os quadros de ansiedade, depressão e estresse crônico observados nesses pacientes resultam da inter-relação biológica entre o intestino e o sistema nervoso central o chamado eixo cérebro-intestinal, reforçada pelo fato de que a maior parte da serotonina corporal é sintetizada no trato digestivo, associada a profundas alterações comportamentais e sociais.

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A imprevisibilidade dos surtos de ativação da doença altera significativamente a rotina e a autonomia do indivíduo. Durante as fases de crise, a urgência evacuatória obriga o paciente a recalcular trajetos e limitar saídas, gerando o medo constante de não encontrar banheiros acessíveis em locais públicos. Esse estado de alerta permanente frequentemente culmina no isolamento social, afetando com maior gravidade adolescentes e jovens adultos em fases decisivas de socialização, desenvolvimento afetivo e início da vida profissional ou acadêmica.

O Estigma da Ostomia, Mutilação Imagem e Sexualidade

Nos cenários de maior gravidade ou falha no tratamento medicamentoso, a intervenção cirúrgica pode exigir a confecção de um estoma (colostomia ou ileostomia) para o desvio do trânsito intestinal. A introdução da bolsa de colostomia, seja ela temporária ou definitiva, deflagra um quadro de crise psíquica caracterizado por:

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  • •  Sensação de mutilação da imagem corporal: A alteração na anatomia abdominal evoca sentimentos de perda e rejeição do próprio corpo;
  • •  Fobia do odor e de vazamentos: O medo permanente de episódios involuntários de ruídos ou odores manifesta-se mesmo em pacientes com higienização e manejo impecáveis das bolsas;
  • •  Inibição e retraimento da sexualidade: O medo da rejeição do parceiro afetivo induz à esquiva de intimidade e ao bloqueio do desejo sexual.

A Desconstrução da Autoculpabilização e o Acompanhamento Multidisciplinar

No contexto hospitalar e ambulatorial, um dos maiores desafios do atendimento psicológico reside em desconstruir o ciclo de autoculpabilização. É frequente que o paciente associe o surgimento da doença autoimune a condutas passadas, como escolhas alimentares inadequadas, episódios de estresse ou consumo de álcool e tabaco. O psicólogo atua esclarecendo a etiologia multifatorial e genética da DII, acolhendo a culpa desadaptativa e promovendo a literacia em saúde através do alinhamento direto com a equipe médica e de enfermagem.

A adaptação ao diagnóstico e a eventuais limitações físicas não ocorre de forma espontânea. Por meio da psicoterapia integrada ao tratamento gastroenterológico, o paciente desenvolve estratégias adaptativas que permitem retomar o convívio social, cultivar relacionamentos saudáveis, praticar atividades físicas supervisionadas e preservar sua autonomia e projeto de vida.

Perguntas Frequentes (FAQ)

Por que as Doenças Inflamatórias Intestinais afetam diretamente o humor? Porque o intestino e o cérebro mantêm uma comunicação constante (eixo cérebro-intestinal) e o intestino é responsável pela produção de grande parte da serotonina do organismo, neurotransmissor fundamental na regulação do humor e da ansiedade.

Quais as principais diferenças entre a Doença de Crohn e a Retocolite Ulcerativa? A Doença de Crohn pode afetar qualquer parte do trato gastrointestinal (da boca ao ânus) em camadas profundas da parede intestinal. A Retocolite Ulcerativa afeta exclusivamente a mucosa do intestino grosso (cólons e reto) de forma contínua.

Como o acompanhamento psicológico ajuda o paciente com bolsa de ostomia? A psicoterapia auxilia na resignificação da imagem corporal, na superação do medo de rejeição social ou afetiva e na redução da ansiedade, facilitando a aceitação da bolsa como uma ferramenta de preservação da saúde e qualidade de vida.

O estresse e a ansiedade podem causar Doença Inflamatória Intestinal? Não. As DIIs são doenças autoimunes de causa genética e multifatorial. No entanto, o estresse e a ansiedade atua como gatilhos para exacerbação dos sintomas e surtos de atividade da doença.

Fonte:

Bárbara Bastoni – Psicóloga

Especialista em Psicologia Hospitalar, com vasta experiência no acompanhamento de pacientes com condições crônicas, doenças autoimunes, ostomizados e pacientes em cuidados de alta complexidade. Dedica sua prática ao suporte emocional, reabilitação da autoestima e adaptação funcional de indivíduos com Doenças Inflamatórias Intestinais.

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