Em tempos de campeonatos de relevância digital e busca por validação instantânea, neste artigo refletimos sobre os critérios que estamos transformando em referência para o cérebro infantil e adolescente.

Em campeonatos de “farmar aura”, crianças e adolescentes são avaliados pela capacidade de reproduzir gestos, movimentos corporais, dancinhas e expressões que circulam nas redes sociais. Quanto mais presença, estilo e impacto diante do público, maior a pontuação.

CONTINUA APÓS A PUBLICIDADE

À primeira vista, pode parecer apenas uma brincadeira. E, de fato, brincar, dançar, movimentar o corpo e participar de experiências coletivas também fazem parte de um desenvolvimento saudável. O problema não está no movimento corporal em si, mas no conteúdo ou na falta dele que estamos transformando em referência.

O que esses jovens precisam fazer para conquistar admiração?

Eles não precisam demonstrar conhecimento, construir um argumento, criar algo verdadeiramente novo, resolver um problema, sustentar uma ideia ou desenvolver alguma habilidade que exija estudo e persistência. Em muitos casos, basta repetir um gesto que viralizou, reproduzir uma dancinha, demonstrar desenvoltura diante das câmeras e conquistar a aprovação do público.

Talvez o campeonato seja apenas o sintoma mais visível de algo que já acontece diariamente nas redes sociais: gestos vazios recebem aplausos, movimentos repetidos geram milhares de visualizações e comportamentos sem qualquer contribuição intelectual são transformados em símbolos de prestígio.

CONTINUA APÓS A PUBLICIDADE

Enquanto isso, quantas crianças são admiradas por ler, pesquisar, estudar, argumentar, tocar um instrumento, escrever, construir, investigar ou se dedicar profundamente a alguma área do conhecimento?

Não significa que toda atividade juvenil precise ser educativa, produtiva ou intelectualmente sofisticada. Crianças e adolescentes também precisam brincar, experimentar e simplesmente se divertir. Mas existe uma diferença entre permitir uma diversão passageira e transformar essa diversão em modelo de reconhecimento social.

Quando adultos, famílias, influenciadores e até figuras públicas celebram intensamente essas performances, transmitem uma mensagem, ainda que não percebam: é isso que merece visibilidade; é assim que se conquista admiração; é dessa forma que alguém se torna relevante.

O jovem aprende também pelo que vê ser valorizado

A formação de uma criança não acontece apenas por meio daquilo que os adultos dizem. Ela acontece, principalmente, pela observação daquilo que os adultos admiram, compartilham, incentivam e aplaudem.

Não adianta dizer aos jovens que estudar é importante se toda a atenção social está concentrada em quem viraliza. Não basta falar sobre esforço, conhecimento e responsabilidade quando as maiores demonstrações de entusiasmo são destinadas a comportamentos que exigem exposição, imitação e capacidade de acompanhar tendências.

Os jovens estão construindo sua identidade. Naturalmente, procuram referências para compreender o que precisam fazer para pertencer e ser reconhecidos. Se o ambiente lhes mostra repetidamente que o valor está em chamar atenção, reproduzir o gesto do momento e obter aprovação imediata, é provável que invistam cada vez mais energia nessa direção.

O desenvolvimento intelectual, por outro lado, exige algo que a cultura da viralização dificilmente consegue oferecer: tempo, concentração, continuidade, tolerância ao erro e disposição para permanecer em uma atividade mesmo quando não existe aplauso imediato.

• Ler um livro não produz reconhecimento instantâneo.

• Aprender um instrumento leva anos.

• Construir repertório requer dedicação.

• Desenvolver pensamento crítico pode ser desconfortável.

• Formar competência exige atravessar a frustração.

Uma dancinha viral oferece retorno em segundos. É justamente essa diferença que merece nossa atenção.

Apoiar os filhos também significa selecionar o que será validado

É compreensível que as famílias queiram participar do universo dos filhos. O problema começa quando presença e apoio são confundidos com a obrigação de validar tudo.

A função dos adultos não é ridicularizar os interesses juvenis, mas também não é aplaudi-los de maneira automática. Pais e educadores precisam ajudar os jovens a estabelecer critérios:

• Isso é apenas uma brincadeira ou está se tornando uma medida de valor?

• O que essa tendência desenvolve?

• Que mensagem ela transmite?

• Quem fica de fora?

• Por que determinada pessoa é admirada?

Também precisamos observar quanto tempo, investimento emocional e importância são destinados a essas manifestações. Quando uma família mobiliza recursos, exposição e entusiasmo para que uma criança seja reconhecida por reproduzir gestos virais, mas não demonstra o mesmo envolvimento diante de seu desenvolvimento intelectual, algo precisa ser revisto.

Que “aura” queremos ajudar a construir?

Talvez a pergunta não seja se os jovens deveriam ou não participar desses campeonatos. A questão mais profunda é o que nós, adultos, estamos transformando em referência.

Estamos formando uma geração que deseja desenvolver competência ou apenas visibilidade? Que busca construir uma identidade ou reproduzir personagens? Que admira o conhecimento ou apenas aquilo que entretém por alguns segundos?

Uma sociedade revela seus valores por aquilo que premia. Quando gestos vazios recebem troféus, dinheiro, aplausos e grande repercussão, enquanto o esforço intelectual permanece quase invisível, não podemos responsabilizar somente os jovens. Foram os adultos que construíram o palco, organizaram a competição, atribuíram as notas e decidiram o que merecia ser celebrado.

A brincadeira passa. O meme é substituído. A dancinha deixa de ser tendência. Mas os critérios de admiração que ensinamos durante a infância e a adolescência podem permanecer. Mais importante do que ajudar uma criança a ‘farmar aura’ é ajudá-la a construir conteúdo: pensamento, repertório, competência, responsabilidade e valores. Porque chamar atenção pode garantir alguns minutos de visibilidade. Mas é aquilo que o jovem desenvolve internamente que lhe permitirá crescer, contribuir e sustentar quem é quando o público deixar de aplaudir.

Publicidade
Publicidade