O diagnóstico de neoplasia em pacientes jovens surge de forma inesperada e exige tomadas de decisão céleres. Além de planejar a conduta terapêutica oncológica, o impacto gonadotóxico da quimioterapia e da radioterapia sobre a reserva ovariana e a espermatogênese traz a necessidade de discutir a oncofertilidade área da medicina voltada à preservação do potencial reprodutivo antes do início do tratamento antineoplásico.
Em entrevista ao apresentador Salatiel Araújo abordo a atuação da equipe multidisciplinar, os métodos de criopreservação para homens e mulheres e o momento seguro para a futura gestação.
Estratégias de preservação: homens e mulheres
O tempo hábil entre o diagnóstico e a liberação para o início das sessões de quimioterapia orienta a conduta reprodutiva adotada:
- • Preservação Masculina (Criopreservação Seminal): Apresenta execução simples e rápida. O paciente realiza a coleta de sêmen por masturbação em intervalo de dois a três dias, permitindo armazenar amostras viáveis para futuras inseminações ou fertilização in vitro (FIV) em cerca de uma semana;
- • Preservação Feminina (Congelamento de Óvulos ou Embriões): Exige estimulação ovariana direcionada. Em cenários oncológicos com tempo restrito, utiliza-se o protocolo de DuoStim (estímulo duplo), em que o tratamento é iniciado em qualquer fase do ciclo menstrual, permitindo realizar duas aspirações foliculares em um único mês para otimizar o estoque de óvulos;
- • Avanço na Estimativa de Sucesso: Ferramentas de Inteligência Artificial analisam a qualidade morfométrica de cada óvulo coletado, fornecendo à paciente uma taxa preditiva individualizada de gravidez futura.
Janela de segurança e gestação futura
Após a conclusão e o sucesso do tratamento antineoplásico, o momento para a busca da gestação deve ser planejado conjuntamente com o oncologista assistente:
1 – Tempo Livre de Doença: É necessário aguardar a remissão e a estabilização clínica para garantir que as alterações hormonais fisiológicas da gestação não interfiram na evolução da saúde da mulher;
2 – Uso de Útero de Substituição (Barriga Solidária): Caso a intervenção médica exija a remoção cirúrgica do útero (histerectomia) ou contraindique a gestação por razões sistêmicas, os óvulos criopreservados podem ser fertilizados e transferidos para um útero de substituição (parentes de até 4º grau, conforme as normas do Conselho Federal de Medicina – CFM).
Proporcionar o acolhimento multiprofissional e esclarecer as opções de criopreservação garante a pacientes e casais a perspectiva concreta de constituir família com segurança após a recuperação.
