A medicina da enxaqueca vive uma de suas maiores transformações nas últimas décadas. A Anvisa aprovou no Brasil o atogepanto (Aquipta), um novo medicamento oral da classe dos gepants indicado para a prevenção da enxaqueca em adultos que apresentam quatro ou mais episódios mensais.
Trata-se de um avanço crucial para uma doença neurológica crônica e altamente incapacitante, que compromete a capacidade de trabalho, o sono, as relações familiares e a qualidade de vida. O atogepanto atua diretamente sobre uma das principais vias biológicas da doença: o CGRP (peptídeo relacionado ao gene da calcitonina).
Como funciona o atogepanto e por que ele é diferente?
Durante uma crise de enxaqueca, o CGRP participa da transmissão da dor e dos fenômenos vasculares e neuroinflamatórios cerebrais. Diferente dos anticorpos monoclonais injetáveis, o atogepanto é uma pequena molécula oral que atua como antagonista do receptor do CGRP preenchendo a “fechadura” química antes que o CGRP se ligue e desencadeie a dor.
Essa abordagem representa um tratamento desenhado especificamente para a biologia da enxaqueca, ao contrário de preventivos tradicionais que foram criados originalmente para epilepsia, hipertensão ou depressão.
Pacientes refratários, rapidez de ação e “prevenção situacional”
A chegada do atogepanto amplia as oportunidades terapêuticas para quem convive com formas graves da doença:
1 – Enxaqueca Refratária e Uso Combinado: Pacientes com enxaqueca crônica que não obtiveram resposta satisfatória com tratamentos prévios podem se beneficiar da combinação de terapias (como a associação de moduladores de CGRP com toxina botulínica).
2 – Redução de Medicamentos Agudos: Estudos de Fase 3 demonstraram redução tanto dos dias de enxaqueca quanto da necessidade de analgésicos de crise.
3 – Ação Rápida: Ensaios clínicos demonstraram diminuição na frequência de crises já no primeiro dia após o início da medicação.
4 – Futuro da “Prevenção Situacional”: Pesquisadores discutem a possibilidade de usar gepants por períodos curtos antes de gatilhos previsíveis (como o período menstrual ou fases de estresse intenso). Embora promissora, essa abordagem situacional ainda passa por investigação científica e difere da indicação contínua aprovada pela Anvisa.
A enxaqueca não é uma “simples dor de cabeça”, mas sim uma disfunção neurológica complexa. Quanto mais compreendemos sua neurobiologia, mais deixamos de apenas “apagar incêndios” para tratar as causas que fazem o cérebro produzir a dor.



