O zumbido no ouvido é uma condição altamente prevalente que desafia a qualidade de vida da população. Dados do Ministério da Saúde indicam que cerca de 25 a 28 milhões de brasileiros sofrem com esse incômodo continuamente. Embora seja classificado como um sintoma otológico, ou seja, originado no sistema auditivo, o zumbido possui mais de 300 causas multifatoriais, e uma parte delas está localizada fora do ouvido, ligada diretamente à saúde orofacial e musculoesquelética.
A conexão entre as queixas orofaciais e as alterações auditivas ganha destaque com os alertas da Dra. Katia Akemi Uezu, integrante da Câmara Técnica de Disfunção Temporomandibular e Dor Orofacial do Conselho Regional de Odontologia de São Paulo (CROSP). Segundo a especialista, a disfunção temporomandibular (DTM) e o bruxismo podem ser fatores desencadeantes por trás desse estresse sonoro.
O que é o zumbido somatossensorial e como ele é gerado?
Quando o zumbido é desencadeado, intensificado ou modulado por estímulos dos movimentos da cabeça, da mandíbula, pela tensão muscular ou pela disfunção temporomandibular (DTM) e dor orofacial, recebe o nome clínico de zumbido somatossensorial. Essa condição pode acontecer devido à proximidade anatômica entre a articulação temporomandibular (ATM) e as estruturas do sistema auditivo.
A tensão muscular constante na mandíbula, no pescoço e/ou na região dos ombros gera estímulos nervosos que o cérebro interpreta incorretamente como sons. Um estudo publicado na renomada revista científica Clinical Oral Investigations demonstrou o tamanho desse impacto: 52,1% dos pacientes diagnosticados com DTM do tipo muscular apresentavam o zumbido como uma de suas queixas principais e mais prevalentes. Nos casos de DTM do tipo articular, o sintoma foi associado aos processos degenerativos na ATM e ao envelhecimento natural dos tecidos conectados ao ouvido.
Como o problema afeta a mastigação e a saúde bucal
Embora o ruído no ouvido não danifique os dentes de forma direta, os fatores que o geram— quando não controlados — criam um ciclo de prejuízos para a saúde geral do paciente. A dor e a tensão/contrações musculares constantes e frequentes limitam funções básicas do sistema mastigatório.
“Se a causa for a DTM muscular e/ou articular ou o bruxismo não controlado, o paciente pode, por exemplo, limitar os movimentos mandibulares na mastigação de determinados alimentos e na realização da higiene bucal, por serem gatilhos para o zumbido e dor, o que poderá comprometer tanto a sua alimentação quanto a sua saúde bucal”, esclarece a Dra. Katia Akemi Uezu.
A tensão muscular constante e frequente dos músculos da mastigação, do pescoço e/ou dos ombros gera os pontos-gatilhos miofasciais, que são nódulos de fibras musculares hipersensíveis e inflamados localizados em bandas musculares tensas e que causam dores referidas em outras regiões do corpo, podendo também desencadear, modular ou reduzir o zumbido quando pressionados/ palpados. E quanto maior a dor, pior é o zumbido.
Opções de tratamento e o papel da odontologia especializada
Por provocar reflexos severos no bem-estar e na saúde mental, gerando ansiedade e distúrbios do sono (pois percebe o zumbido com intensidade e volume maiores, o que dificulta o início e a manutenção do sono), o zumbido somatossensorial exige um plano terapêutico personalizado. O foco do cirurgião-dentista especialista em DTM e Dor Orofacial é realizar o diagnóstico diferencial e atuar na modulação e controle do quadro.
O protocolo de manejo clínico para reverter o estresse muscular e articular envolve:
Apoio educativo e orientacional: Orientação profissional detalhada sobre os hábitos nocivos e os fatores de melhora e piora do zumbido e dor, além da importância do autocuidado e os impactos do estresse e ansiedade;
Tratamento da DTM e a desativação de pontos-gatilhos miofasciais nos músculos da mastigação: Manejo da dor orofacial, manejo dos bruxismos do sono e em vigília (quando presentes), manipulação dos músculos da mastigação e exercícios mandibulares, a desativação de pontos-gatilhos miofasciais com a técnica do agulhamento seco ou o agulhamento seco com infiltração de anestésico;
Manejo do bruxismo do sono e do bruxismo em vigília: Manejo e controle com a identificação dos fatores e hábitos desencadeantes e mantenedores deles, a educação e a orientação desses pacientes quanto a importância da qualidade de sono, o manejo da ansiedade, o uso de medicações (efeitos adversos ou interações medicamentosas) que intensificam o bruxismo;
Dispositivos Interoclusais: Quando houver a indicação para o caso, a utilização de placas interoclusais rígidas (“placas de bruxismo”) confeccionadas sob medida para reduzir a carga da compressão nas ATM durante o sono;
Abordagem Multiprofissional: O tratamento do zumbido exige a coordenação integrada de cuidados entre o cirurgião-dentista, o médico otorrinolaringologista, o fonoaudiólogo e o fisioterapeuta, além do suporte psicológico quando necessário.
Perguntas frequentes sobre zumbido, DTM e bruxismo (FAQ)
Como posso saber se o meu zumbido é de causa muscular (somatossensorial)?
Um sinal clássico do zumbido somatossensorial é a mudança na intensidade ou no tom do zumbido quando você realiza movimentos com a cabeça, a boca (como morder forte, bocejar, apertar os dentes) ou quando pressionar os músculos da bochecha, da região de ATM, têmporas, do pescoço e/ou dos ombros, por exemplo.
A placa de bruxismo cura o zumbido no ouvido de forma definitiva?
A placa interoclusal de uso durante o sono não é uma cura. Ela pode ser indicada para reduzir a pressão nas ATM durante o sono (no bruxismo do sono) e até a manter a mandíbula em uma determinada posição, modulando e reduzindo o zumbido quando esses são os seus fatores desencadeantes ou agravantes. Lembrando que o zumbido é multifatorial e devem ser avaliados e tratados a DTM, a qualidade do sono, hábitos deletérios, comorbidades, entre outros.
Qual a diferença entre a DTM muscular e a DTM articular?
A DTM muscular envolve dor, fadiga muscular, tensão muscular constante (e frequente) e pontos-gatilhos de dor miofascial nos músculos da mastigação (masseter, pterigóideos medial e lateral, temporal e o esternocleidomastóideo) e que movimentam a mandíbula e a cabeça, como as estruturas anexas do pescoço e ombros. A DTM articular refere-se a problemas estruturais internos da própria articulação (a ATM), como o deslocamento do disco articular, de cartilagem, estalos e crepitação (ruído de areia) ou de processos degenerativos, como a artrose e a artrite reumatóide.
O que faz o CROSP e qual sua função em relação aos profissionais de saúde?
O Conselho Regional de Odontologia de São Paulo (CROSP) é uma autarquia federal que fiscaliza e supervisiona a conduta ética de mais de 175 mil profissionais da Odontologia no estado. Ele assegura que os tratamentos sejam realizados por cirurgiões-dentistas devidamente habilitados, zelando pelo prestígio técnico e pela segurança do paciente.
Fontes:
Conselho Regional de Odontologia de São Paulo (CROSP);
Dra. Katia Akemi Uezu – Cirurgiã-dentista e integrante da Câmara Técnica de DTM e Dor Orofacial do CROSP (Julho de 2026);
Dados estatísticos do Ministério da Saúde e estudo publicado na revista científica Clinical Oral Investigations.
