As férias escolares costumam ser aguardadas com ansiedade pelas crianças. Afinal, é tempo de brincar, passear, dormir um pouco mais e aproveitar momentos em família. E isso é maravilhoso. Mas existe uma dúvida que aparece em muitos lares nesta época do ano: nas férias devemos abandonar completamente a rotina?
A resposta é: não.
Isso não significa transformar o período de recesso em uma extensão da escola, nem manter horários rígidos para absolutamente tudo. Pelo contrário. As férias precisam ser leves, prazerosas e permitir que a criança descanse física e emocionalmente. Porém, o cérebro infantil funciona melhor quando existe um mínimo de previsibilidade.
A importância da previsibilidade para o cérebro infantil
As crianças se sentem mais seguras quando sabem, mesmo que de forma flexível, o que esperar do dia. Horários aproximados para acordar, fazer as refeições, brincar, tomar banho e dormir ajudam o cérebro a organizar seus ritmos biológicos e emocionais.
Quando toda a rotina desaparece, é comum observar alterações no comportamento: maior irritabilidade, distúrbios no sono, dificuldade para aceitar limites e até aumento da ansiedade. Muitas famílias percebem isso apenas quando chega o momento de voltar às aulas e a readaptação se torna muito mais difícil do que imaginavam.
O sono, por exemplo, merece atenção especial. Durante a infância, ele desempenha um papel fundamental na consolidação da memória, na aprendizagem, na regulação das emoções e no desenvolvimento cerebral. Dormir um pouco mais nas férias não representa problema. O desafio aparece quando a criança passa a dormir de madrugada e acordar perto do meio-altar do dia, tornando o reajuste do relógio biológico um processo exaustivo.
O perigo do excesso de telas e o valor do tédio criativo
Outro ponto crítico é o tempo de uso de dispositivos eletrônicos. É natural que celulares, tablets e videogames ocupem um espaço maior durante o recesso. No entanto, quando as telas passam a preencher praticamente todo o dia, outras experiências essenciais deixam de acontecer.
Brincadeiras ao ar livre, jogos de tabuleiro, leitura, desenhos, esportes e conversas estimulam diferentes áreas do cérebro e favorecem o desenvolvimento da linguagem, da atenção, das funções executivas e das habilidades sociais.
Além disso, vale lembrar que o tédio não é um inimigo:
Vivemos em uma época em que sentimos a necessidade de entreter as crianças o tempo todo. No entanto, pequenos momentos sem uma atividade pronta estimulam a criatividade, a imaginação e a capacidade de encontrar soluções por conta própria. É nesses espaços que muitas brincadeiras inesquecíveis nascem.
Nem sempre é preciso oferecer uma programação sofisticada. Na maioria das vezes, aquilo que a criança mais deseja é algo simples: preparar um bolo com os avós, montar uma cabana na sala, ajudar a cuidar da casa, fazer um piquenique no parque ou jogar cartas em família. São nesses momentos que surgem memórias afetivas profundas e oportunidades para desenvolver autonomia e fortalecer os vínculos.
Na prática: como manter uma rotina saudável nas férias?
Para ajudar as famílias a atravessarem o recesso com leveza e equilíbrio, a psicóloga destaca cinco orientações fundamentais:
• 1 – Mantenha horários aproximados para dormir e acordar: Não é preciso seguir o relógio rigoroso da escola, mas evitar mudanças drásticas facilita enormemente o retorno às aulas.
• 2 – Reserve momentos sem telas todos os dias: Brincadeiras livres, jogos, leitura, atividades manuais e tempo ao ar livre estimulam o cérebro de maneiras que nenhuma tela consegue substituir.
• 3 – Inclua a criança nas atividades da casa: Preparar uma receita, cuidar das plantas, organizar os brinquedos ou ajudar em pequenas tarefas desenvolve autonomia e o sentimento de pertencimento.
• 4 – Permita momentos de “não fazer nada”: O tédio, em pequenas doses, é o grande motor da criatividade e da imaginação infantil.
• 5 – Crie memórias, não apenas programação: As lembranças mais marcantes da infância geralmente não envolvem viagens caras ou brinquedos complexos, mas tempo de qualidade, conversas e a sensação de estar junto de quem se ama.
O cérebro aprende todos os dias. Cabe a nós transformar as experiências da infância em oportunidades de desenvolvimento. Porque crescer não depende apenas do que a criança aprende, mas também do que ela vive, sente e compartilha com quem ama.
