O gastroenterologista e especialista em endoscopia bariátrica Dr. Túlio Medeiros detalha a mecânica do set point metabólico, alerta contra os riscos da perda de massa magra e apresenta os protocolos de desmame e intervenção endoscópica.
Imagem Ilustrativa

A luta contra a obesidade e o sobrepeso não se encerra com a conquista da meta na balança. Pelo contrário: a manutenção do peso perdido representa a fase mais complexa do tratamento. O fenômeno do reganho de peso popularmente conhecido como efeito sanfona afeta a grande maioria dos pacientes que passam por processos de emagrecimento, seja por intervenção comportamental, uso de farmacoterapia (como canetas análogas de GLP-1/GIP) ou procedimentos endoscópicos e cirúrgicos. Segundo o Dr. Túlio Santos de Medeiros, médico gastroenterologista especialista pela SOBED/AMB, o corpo humano é biologicamente programado para estocar energia e recuperar o tecido adiposo perdido como um mecanismo atávico de defesa e sobrevivência.

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Para que o organismo compreenda a nova faixa de peso como o seu novo padrão fisiológico, o paciente precisa manter a estabilidade ponderal por um período contínuo de 1 a 2 anos. É esse o tempo necessário para que ocorra a recalibragem do chamado set point metabólico (o “termostato” neuroendócrino que regula o gasto energético e a fome). Interromper o acompanhamento médico e nutricional logo após atingir a meta impede a consolidação desse novo limiar, mantendo o indivíduo em alta vulnerabilidade para o reganho súbito.

 

Os Perigos Metabólicos do Reganho e o Papel da Massa Magra

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O efeito sanfona gera prejuízos profundos que vão muito além da insatisfação estética. Durante um processo de emagrecimento acelerado sem orientação técnica, é comum que o paciente perca tanto tecido adiposo quanto massa muscular (massa magra). Contudo, quando o reganho de peso ocorre por descuido alimentar ou abandono da rotina, a recomposição do peso dá-se exclusivamente na forma de gordura.

A perda sucessiva de tecido muscular desacelera o metabolismo basal (a quantidade de calorias que o corpo queima em repouso). A cada ciclo do efeito sanfona, a composição corporal do paciente piora, tornando os processos futuros de emagrecimento progressivamente mais difíceis, morosos e propensos ao acúmulo de gordura visceral.

Estratégia Multidisciplinar e Fases do Processo Ponderal

A prevenção do reganho de peso exige uma abordagem por fases e a atuação de uma equipe multidisciplinar integrada (médico, nutricionista esportivo, preparador físico e psicólogo comportamental):

1 – Acompanhamento Espaçado na Manutenção: Após a perda de peso, as consultas médicas não devem ser canceladas, mas sim espaçadas (realizadas a cada 2 ou 3 meses). Essa continuidade impede o relaxamento comportamental e permite ajustes precoces caso ocorram flutuações de 1 a 2 kg.

2 – Ativação Metabólica via Exercício de Força: Na fase de manutenção, a restrição calórica extrema torna-se contraproducente e perigosa. O paciente precisa aumentar a ingestão proteica fracionada para abastecer a reconstrução muscular, associada ao treinamento de força (musculação com progressão de carga) para manter o metabolismo ativo.

3 – Reeducação Comportamental: A terapia comportamental atua na raiz da relação psíquica do paciente com o alimento, prevenindo episódios de compulsão ou compensação em momentos de estresse.

Ferramentas Médicas de Transição: Desmame Farmacológico e Plasma de Argônio

A medicina atual dispõe de recursos de alta precisão para auxiliar na fase de transição e evitar que o reganho ocorra durante a retirada das intervenções primárias:

  •  • Protocolo de Desmame de Fármacos (Canetas Emagrecedoras): O término do uso de medicações como tirzepatida, semaglutida ou liraglutida não deve ser feito de forma abrupta. O médico estabelece um desmame gradual, reduzindo doses e espaçando os intervalos das aplicações à medida que a nova rotina alimentar e de exercícios se consolida, desacelerando o retorno do apetite.
  •  • Transição entre Tecnologias (Balão Gástrico): Na fase final de uso do balão intragástrico, o médico pode optar pela troca profilática da prótese por um período menor ou realizar a ponte terapêutica com doses baixas de canetas emagrecedoras para sedimentar a mudança de hábitos.
  •  • Plasma de Argônio pós-Bariátrica: Para pacientes submetidos à cirurgia bariátrica (técnica de Bypass Gástrico) que apresentam reganho de peso anos após o procedimento, a endoscopia bariátrica oferece o tratamento com Plasma de Argônio. O procedimento realiza a cauterização por plasma da anomalia do estoma anatômico (a emenda entre o estômago e o intestino), reduzindo seu diâmetro dilatado e devolvendo a sensação de saciedade precoce ao paciente.

Perguntas Frequentes sobre Reganho de Peso (FAQ)

Por que é tão difícil manter o peso nos primeiros meses após emagrecer? Porque o corpo entende a perda de gordura como uma ameaça e reduz o gasto calórico basal, aumentando os hormônios da fome. O set point metabólico leva de 1 a 2 anos para se adaptar ao novo peso.

O que acontece com o corpo quando se ganha peso de novo no efeito sanfona? No reganho, o corpo acumula apenas gordura, sem recuperar a massa muscular perdida. Isso reduz a taxa metabólica basal e torna cada novo processo de emagrecimento mais difícil.

Como é feito o desmame correto das canetas emagrecedoras? O desmame é feito pelo médico de forma progressiva, reduzindo as doses e aumentando o intervalo entre as aplicações, enquanto o paciente consolida o ganho de massa magra e o controle comportamental.

O que é o tratamento com Plasma de Argônio pós-cirurgia bariátrica? É uma técnica endoscópica que cauteriza as bordas da saída do estômago (estoma anastomótico) em pacientes bariátricos que voltaram a engordar. O procedimento reduz o tamanho do estômago dilatado, resgatando a saciedade rápida.

Fonte:

Dr. Túlio Medeiros – Médico Gastroenterologista e Endoscopista

CRM-SP: 132.218 | RQE: 35.078

Formado pela UFPB (2005), com residência médica em Gastroenterologia e Endoscopia Digestiva pelo Hospital Nove de Julho/Hospital Ipiranga. Especialista Titular pela SOBED/AMB, possui pós-graduação em Doenças Funcionais pelo Hospital Israelita Albert Einstein, membro da American Society for Gastrointestinal Endoscopy (ASGE) e mestrando pelo IAMSPE. Referência em endoscopia digestiva avançada e gastroenterologia bariátrica em São Paulo, atuando no manejo preventivo e cirúrgico/endoscópico da obesidade e coordenação de serviços hospitalares.

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