Os recentes registros de ataques de tubarão no litoral pernambucano reacenderam o debate público sobre os riscos desse tipo de acidente. Embora as imagens de resgates e intervenções ortopédicas imediatas causem grande impacto visual, especialistas fazem um alerta importante: as consequências mais complexas e duradouras costumam ser invisíveis, manifestando-se na saúde neurológica e mental dos sobreviventes.
Além do trauma tecidual e do risco cirúrgico inicial, as mordeduras podem resultar em danos profundos ao sistema nervoso periférico, dor crônica incapacitante e transtornos psicológicos. O Dr. Luiz Severo, médico neurocirurgião, membro titular da Sociedade Brasileira para o Estudo da Dor (SBED) e referência no tratamento avançado de dores crônicas no país explicou o quadro com mais detalhes.
O impacto neurológico e as lesões em estruturas nobres
A força mecânica da mordedura de um predador marinho atinge diretamente componentes vitais do sistema nervoso. Mesmo nos cenários em que os cirurgiões conseguem preservar o membro afetado, os danos funcionais e sensitivos internos podem deixar limitações permanentes para o resto da vida.
“Quando falamos em uma mordedura de tubarão, não estamos falando apenas da perda de tecidos ou de uma fratura. Muitas vezes existem lesões de nervos periféricos, lesões de plexo braquial quando o membro superior é atingido, além de danos em nervos importantes dos membros inferiores”, explica o Dr. Luiz Severo. Essas rupturas se traduzem em perda crônica de força motora, alterações na sensibilidade, formigamentos constantes e dor neuropática, dificultando o retorno do paciente às atividades profissionais e esportivas.
A dor do membro fantasma afeta até 80% dos amputados
Nos casos de maior gravidade, a amputação cirúrgica do membro é a única alternativa para salvar a vida do paciente devido à extensão dos danos ou ao risco de infecção generalizada. Contudo, a retirada anatômica da estrutura inicia um novo desafio clínico ligado à reorganização do sistema nervoso central no cérebro.
O neurocirurgião destaca que entre 60% e 80% dos pacientes submetidos a amputações traumáticas desenvolvem a chamada dor do membro fantasma ou dor crônica pós-amputação. “O cérebro continua interpretando sinais daquela região que já não existe fisicamente, gerando dor intensa e muitas vezes incapacitante”, aponta o especialista. Essa condição neuropática faz com que o paciente relate sensações nítidas de que o membro ainda está presente, acompanhadas de queimação, choques elétricos e câimbras contínuas.
O perigo bacteriano na cavidade oral dos tubarões
Outro fator crítico que exige abordagem imediata nas primeiras horas após o acidente é o risco biológico. A cavidade oral dos tubarões abriga uma microbiota de bactérias marinhas altamente agressivas para o tecido humano, transformando a lesão física em uma emergência infecciosa de alta complexidade.
Para mitigar o risco de infecções graves e osteomielite, o protocolo exige uma intervenção cirúrgica imediata para limpeza minuciosa dos tecidos, associada à introdução precoce de antibioticoterapia de amplo espectro. O Dr. Luiz Severo reforça que o tempo decorrido entre o ataque e o início desse manejo multiprofissional é o principal fator determinante para reduzir as chances de amputações secundárias decorrentes de infecções.
A lesão emocional oculta e o estresse pós-traumático
Por se tratar de um evento com risco iminente de morte, no qual a vítima frequentemente presencia a própria mutilação sob condições de extremo terror, o impacto psicológico é grave e comumente negligenciado nas fases iniciais do tratamento médico.
Estudos com sobreviventes de grandes traumas apontam índices elevados de ansiedade, depressão e Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT). “Existe uma lesão emocional que muitas vezes é invisível. O paciente revive constantemente o momento do ataque, desenvolve medo intenso da água, crises de ansiedade, alterações do sono e sintomas compatíveis com TEPT”, esclarece o neurocirurgião. Esse bloqueio psicológico afeta o convívio social, fazendo com que os indivíduos passem a evitar praias, viagens e atividades rotineiras.
O tratamento integrado e a reabilitação cerebral
A medicina moderna compreende que o tratamento eficaz de um sobrevivente de ataque de tubarão não se encerra com a cicatrização cirúrgica. Como o cérebro passa por uma reorganização após o trauma, a intervenção precoce sobre as respostas neurológicas é fundamental para evitar que a dor se torne crônica.
O restabelecimento da autonomia do paciente exige uma abordagem integrada envolvendo:
- Equipe Cirúrgica: Ortopedistas e cirurgiões para reconstrução ou manejo do coto;
- Especialistas em Dor e Neurologia: Uso de técnicas de neuromodulação e terapias farmacológicas específicas para dor neuropática;
- Equipe de Reabilitação: Fisioterapeutas para ganho de funcionalidade física;
- Saúde Mental: Acompanhamento estruturado com psicólogos e psiquiatras.
Perguntas frequentes sobre sequelas de ataques de tubarão (FAQ)
Por que o cérebro sente dor em um membro que já foi amputado?
Esse fenômeno é chamado de dor do membro fantasma. Ele ocorre porque a área do cérebro responsável por receber os estímulos daquela parte do corpo continua ativa. Na ausência do membro físico, o sistema nervoso central reorganiza as conexões de forma anômala, interpretando a falta de sinal como dores, queimação ou choques.
As lesões nervosas causadas pela mordedura têm cura?
O prognóstico depende da extensão da lesão no nervo periférico ou plexo braquial. Em alguns casos, intervenções cirúrgicas e fisioterapia especializada conseguem recuperar parte dos movimentos e da sensibilidade, enquanto em lesões completas e extensas as limitações podem ser permanentes.
O que é a neuromodulação mencionada no tratamento da dor?
A neuromodulação engloba técnicas médicas que utilizam estímulos elétricos ou químicos diretamente no sistema nervoso (como no cérebro ou na medula espinhal) para modular e corrigir os sinais de dor crônica que estão sendo enviados incorretamente ao cérebro, melhorando a qualidade de vida do paciente.
Qualquer pessoa que sofre o ataque desenvolverá estresse pós-traumático?
Nem todas as pessoas desenvolvem o transtorno na mesma intensidade, mas devido ao caráter aterrorizante do acidente e ao risco de morte, as taxas de TEPT, ansiedade e depressão são extremamente elevadas, tornando o suporte psicológico e psiquiátrico indispensável desde o início da internação.
Fonte:
Dr. Luiz Severo – Neurocirurgião
CRM-PE: 24.210/RQE: 10.983 | CRM-PB: 12.554/RQE: 7.100
Médico Neurocirurgião e especialista em dor. Membro Titular da Sociedade Brasileira de Neurocirurgia (SBN) e da Sociedade Brasileira para o Estudo da Dor (SBED). Reconhecido como liderança médica pela Academia Nacional de Medicina e autor do livro “Você não precisa sentir dor”.
