Neste artigo sobre alfabetização baseada em evidências, explico por que a consciência fonêmica e a formação docente são indispensáveis para ensinar o raciocínio do sistema alfabético.
Imagem Ilustrativa

Atualmente, é cada vez mais comum ouvirmos professores e profissionais afirmarem que utilizam o método fônico para alfabetizar. Esse movimento representa um avanço importante, mas existe um equívoco que precisa ser discutido: alfabetizar com base nas evidências científicas vai muito além de ensinar o som das letras.

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Saber que determinada letra representa determinado som é apenas uma parte do processo. A criança precisa aprender a perceber, identificar, segmentar e manipular conscientemente os sons dentro das palavras. Ela precisa compreender que a fala pode ser decomposta em unidades menores e que esses sons podem ser representados graficamente.

Não basta perguntar “qual é o som desta letra?”. É necessário ensinar a criança a perceber o que acontece quando retiramos, acrescentamos, substituímos ou mudamos a posição de um fonema dentro de uma palavra. É aí que começamos a falar verdadeiramente de consciência fonêmica.

Leitura e escrita: processos distintos que exigem ensino explícito

Embora se desenvolvam de maneira profundamente relacionada, ler e escrever não são o mesmo processo realizado em direções opostas:

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  • •  Na leitura: A criança parte da representação gráfica (grafema) e precisa acessar os sons (fonemas) e, progressivamente, o significado.
  • •  Na escrita: A criança parte da palavra que deseja representar, analisa sua estrutura sonora, seleciona os grafemas correspondentes, considera as convenções ortográficas e produz sua representação escrita.

Por isso, não podemos esperar que o fato de uma criança estar aprendendo a ler faça com que ela descubra espontaneamente como escrever. A escrita precisa ser ensinada passo a passo.

Alfabetização exige progressão, não apenas atividades

Uma metodologia não é definida apenas pelas atividades que utiliza. Trabalhar com letras móveis, rimas ou exercícios isolados de associação entre letras e sons não significa possuir uma metodologia estruturada.

Uma metodologia pressupõe uma lógica de ensino: saber o que ensinar primeiro, quais habilidades são pré-requisitos, quando avançar e como intervir diante de lacunas. Foi para organizar esse percurso que estruturei os sete pilares do Sistema Raciocínio Alfabético:

1 – Consciência Fonológica e Fonêmica: Percepção e manipulação intencional da estrutura sonora da linguagem;

2 – Princípio Alfabético e Correspondência Fonema-Grafema: Ensino explícito da relação entre sons e letras;

3 – Decodificação, Codificação e Construção da Palavra: Integração intencional entre leitura e escrita;

4 – Processamento Visual e Organização do Olhar: Desenvolvimento da atenção visuoespacial para a leitura;

5 – Fluência, Automatização e Prosódia: Liberação de recursos cognitivos para a compreensão;

6 – Ortografia, Morfologia e Padrões da Língua: Compreensão de prefixos, sufixos e famílias de palavras;

7 – Vocabulário, Linguagem e Compreensão: Conexão contínua entre código, linguagem e significado.

A formação do professor é parte da solução

Uma transformação consistente na educação brasileira não acontecerá apenas substituindo materiais ou orientando professores a “usar o método fônico”. É fundamental formar quem ensina.

Os profissionais precisam compreender como a leitura e a escrita se desenvolvem e em que sequência devem ser ensinadas. Não se trata de responsabilizar o professor, mas de oferecer-lhe formação prática e fundamentada nas evidências científicas.

Alfabetizar não é apresentar letras e esperar que a criança descubra como o sistema funciona; é ensinar, de maneira intencional, explícita e progressiva, o raciocínio que permite compreender e dominar o sistema alfabético.

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