Nunca se falou tanto sobre representatividade negra, ancestralidade, reparação histórica e igualdade de oportunidades. Em períodos de debates públicos e eleições, essas discussões ganham lugar de destaque. Contudo, existe uma dimensão desse sofrimento que permanece frequentemente invisível: a dor física e emocional de milhões de brasileiros que, além de conviverem com doenças crônicas, enfrentam barreiras sociais e estruturais para serem ouvidos, diagnosticados e tratados adequadamente.
A dor não escolhe cor, classe social ou origem. Entretanto, as oportunidades de receber acolhimento e terapêutica de ponta estão longe de ser iguais.
O estresse racial e a neurobiologia da dor crônica
Durante séculos, a população negra brasileira enfrentou escravidão, exclusão social e restrições de acesso a direitos fundamentais. As consequências dessa história permanecem presentes nas condições de moradia, nas relações de trabalho, na distribuição de renda e nas possibilidades de acesso ao sistema de saúde.
Na neurociência, compreendemos que a dor crônica não se limita a uma lesão tecidual isolada. Trata-se de um fenômeno biopsicossocial complexo. A exposição contínua ao estresse, à insegurança socioeconômica e à discriminação racial altera o funcionamento do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal (HHA) e dos sistemas descendentes de modulação da dor, aumentando a vulnerabilidade ao adoecimento e à sensibilização central.
Uma revisão científica de 2023 sobre desigualdades raciais na dor crônica destacou a influência direta da discriminação, do estresse racial e do acesso limitado aos serviços sobre a gravidade da dor e os resultados dos tratamentos.
Disparidades na avaliação clínica e o direito ao cuidado
Revisões internacionais que avaliaram mais de uma centena de estudos identificaram disparidades raciais sistemáticas na avaliação da intensidade dolorosa, no tempo de espera para atendimento e na prescrição de analgésicos. No Brasil, o Ministério da Saúde reconhece o racismo institucional e as desigualdades étnico-raciais como determinantes sociais da saúde, direcionando ações por meio da Política Nacional de Saúde Integral da População Negra.
Na prática clínica, tratar a dor exige conhecer a história completa do paciente:
- • Abordagem Humanizada: Não basta perguntar onde dói. É necessário compreender como aquela pessoa vive, trabalha, dorme e acessa os recursos de saúde;
- • Representatividade Efetiva: A presença de profissionais negros na medicina, nas pesquisas e nos espaços de decisão deve se traduzir em políticas públicas que garantam diagnóstico precoce, reabilitação e suporte multidisciplinar;
- • Reparação e Cidadania: Garantir o acesso equitativo ao tratamento da dor é um compromisso inegociável com a dignidade humana.
A cor da pele jamais deveria determinar quem é ouvido ou quem tem o direito de viver com menos dor.
