Neste artigo, explico os mecanismos da perda de foco na maturidade, o impacto da queda do estrogênio no cérebro e o papel da reposição hormonal.

Entre as queixas mais frequentes das mulheres a partir dos 40 anos, durante o climatério e a menopausa, as falhas pontuais de memória, a névoa mental (brain fog), a perda de concentração e a irritabilidade repentina ocupam lugar de destaque. Muitas relatam não se reconhecer mais no próprio cotidiano ao esquecer palavras simples ou compromissos, ou ao perder o fio do raciocínio.

CONTINUA APÓS A PUBLICIDADE

Em entrevista ao apresentador Salatiel Araújo, falei sobre a neurobiologia por trás dessas alterações e o que pode ser feito para proteger a saúde do cérebro nessa fase.

O que acontece com o cérebro quando o estrogênio cai?

O cérebro humano consome cerca de 20% da energia do organismo, principalmente na forma de glicose, para manter a sinalização elétrica e as sinapses ativas. O estradiol participa da captação e do uso dessa glicose pelas células cerebrais, por isso a queda hormonal pode afetar o funcionamento do cérebro:

  •  • Mudança no Uso de Energia: Exames de imagem mostram que, na transição menopausal, o cérebro de muitas mulheres passa a usar menos glicose. Estudos em animais sugerem que, nessa adaptação, o cérebro pode recorrer a outras fontes de energia, incluindo gorduras da bainha de mielina, a camada que reveste os neurônios. Em mulheres, essa hipótese ainda está sendo investigada;
  •  • Aparecimento da Névoa Mental: Essas mudanças podem se manifestar como lapsos de memória, esquecimento de nomes ou objetos do dia a dia e lentidão do raciocínio. Na maioria das mulheres, esses sintomas são mais intensos durante a transição e tendem a melhorar depois da menopausa;
  •  • O Início Silencioso na Perimenopausa: Essas alterações não esperam a última menstruação. As oscilações do estrogênio e a queda da progesterona começam já na perimenopausa, fase que pode durar alguns anos antes da menopausa propriamente dita;
  •  • Insônia e ausência de “Faxina” Cerebral: As alterações hormonais, especialmente as ondas de calor noturnas, prejudicam a qualidade do sono. Durante o sono profundo, o cérebro ativa o sistema glinfático, um processo noturno de eliminação de resíduos metabólicos. Quando o sono é interrompido com frequência, essa limpeza fica prejudicada.

Estratégias preventivas e conduta terapêutica

A proteção da cognição exige uma abordagem médica individualizada, que pode incluir:

1 – Terapia de Reposição Hormonal (TRH) na Janela de Oportunidade: Quando indicado, o estradiol bioidêntico iniciado na “janela de oportunidade” pode aliviar sintomas como ondas de calor e insônia, o que costuma melhorar a concentração e a sensação de névoa mental. Até o momento, porém, a reposição não é indicada com o objetivo específico de prevenir demência;

CONTINUA APÓS A PUBLICIDADE

2 – Controle da Glicemia e da Inflamação: Alimentação equilibrada e atividade física regular ajudam a controlar a glicose e a insulina e a reduzir a inflamação crônica, fatores associados à saúde do cérebro;

3 – Suplementação e Estilo de Vida: Quando há deficiência confirmada em exames, nutrientes como vitamina D, vitaminas do complexo B, ferro e magnésio podem ser repostos sob prescrição médica. Sono de qualidade, exercício físico e estímulo intelectual completam o cuidado com a saúde do cérebro.

A perda de foco e o cansaço mental na maturidade não devem ser aceitos como algo inevitável da idade. O acompanhamento ginecológico e metabólico especializado, inclusive por telemedicina, permite identificar precocemente as alterações hormonais e tratar os sintomas de forma individualizada e segura.

Publicidade
Publicidade