Por muito tempo, o senso comum nos fez acreditar que a hipertensão arterial a famosa pressão alta era um problema restrito às pessoas mais velhas. Embora seja verdade que o maior volume de diagnósticos se concentre acima dos 50 anos, a realidade epidemiológica mudou. Em minha prática clínica na cardiologia e na medicina intensiva, observo com preocupação o avanço silencioso dessa condição entre os mais jovens. Cerca de 30% de hipertensos no Brasil hoje, 6% já correspondem a jovens na faixa dos 18 aos 24 anos.
Esse surgimento precoce da hipertensão está diretamente atrelado a um estilo de vida inadequado. A doença possui caráter multifatorial e é desencadeada por uma combinação de fatores genéticos, má alimentação, sedentarismo, estresse crônico, tabagismo e consumo excessivo de bebidas alcoólicas. Além disso, a literatura médica aponta que indivíduos que nasceram prematuros ou com baixo peso apresentam um risco biológico aumentado para desenvolver a patologia na vida adulta.
O papel dos exames modernos e o mapeamento do risco cardiovascular
Por ser uma doença assintomática, a hipertensão age destruindo os vasos sanguíneos sem dar aviso. Os exames diagnósticos modernos são fundamentais e atuam em duas frentes: na detecção precoce e no rastreio de lesões em órgãos-alvo, como o coração, o cérebro, os rins e a visão.
A escolha dos exames complementares varia de acordo com a história clínica e o exame físico de cada paciente no consultório. Para determinar com precisão o risco cardiovascular, o cardiologista pode lançar mão de um arsenal diagnóstico que inclui:
- Monitorização Ambulatorial da Pressão Arterial (MAPA): Essencial para registrar o comportamento da pressão durante 24 horas;
- Exames Cardíacos e Vasculares: Como o eletrocardiograma, o ecocardiograma e o ultrassom Doppler de carótidas;
- Ultrassonografia Geral: Abdominal e de membros inferiores para avaliar o fluxo de artérias periféricas;
- Tecnologia de Ponta: Como a angiotomografia das artérias coronárias, que permite visualizar de forma não invasiva a presença de placas de gordura no coração.
O que não pode faltar na rotina de prevenção?
A hipertensão é uma doença crônica e não tem cura definitiva, mas pode ser perfeitamente controlada. A base de qualquer estratégia de prevenção ou tratamento reside em dois pilares inegociáveis: atividade física e padrão alimentar.
No campo da nutrição, as dietas DASH e a Mediterrânea são as únicas comprovadamente eficazes na redução dos níveis de pressão arterial. Elas se caracterizam por serem pobres em sódio e ricas em potássio e magnésio. Na prática, isso significa estruturar o cardápio com abundância de frutas, legumes, verduras e grãos integrais, reduzindo drasticamente o consumo de carnes gordas e de alimentos ultraprocessados.
Para o condicionamento vascular, a recomendação prática para mitigar o risco cardiovascular é a realização de, no mínimo, 150 minutos semanais de atividade física de intensidade moderada. O ideal é combinar exercícios aeróbicos (como caminhada rápida, corrida ou ciclismo) com treinos de contraresistência (musculação), fortalecendo o músculo cardíaco e melhorando a elasticidade das artérias.
O perigo da falta de adesão e o silêncio da doença
A maior dificuldade que enfrentamos no controle da pressão alta é a falta de adesão do paciente ao tratamento, seja ele medicamentoso ou na mudança de hábitos diários. Exatamente por ser uma doença silenciosa onde a pessoa não sente dor, tontura ou mal-estar até que as primeiras complicações graves surjam, muitos tendem a menosprezar o cuidado e abandonam as orientações médicas.
É preciso conscientizar a população de que a hipertensão negligenciada é a porta de entrada para o infarto agudo do miocárdio, o Acidente Vascular Cerebral (AVC), a insuficiência renal crônica e a morte precoce. Cuidar da pressão arterial todos os dias, monitorar os índices em consultas regulares com o cardiologista e manter o corpo em movimento não são escolhas temporárias, mas sim o único caminho seguro para garantir uma longevidade ativa e proteger a sua vida.
