Os riscos de oclusão vascular da retina e cegueira causados pelo mau controle da pressão arterial.
Imagem Ilustrativa

Quando uma pessoa é diagnosticada com hipertensão arterial a famosa pressão alta, a preocupação imediata costuma se voltar para o risco de infarto ou Acidente Vascular Cerebral (AVC). O que pouca gente sabe, no entanto, é que essa condição crônica também esconde um perigo silencioso para a nossa visão.

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A pressão arterial elevada e mal controlada altera toda a parte cardiovascular sistêmica do corpo. Como os nossos olhos são órgãos altamente vascularizados, eles sofrem diretamente o impacto desse fluxo sanguíneo desregulado. Na prática oftalmológica, costumo alertar que a hipertensão pode provocar desde pequenos sangramentos superficiais até um verdadeiro “AVC no fundo do olho”.

Os sinais de alerta nos olhos

O primeiro sinal que costuma assustar os pacientes é o derrame na parte branca do olho (hiposfagma). Ele acontece quando um vasinho superficial se rompe, deixando o olho muito vermelho. Embora chame a atenção, na grande maioria das vezes esse quadro não apresenta gravidade. Contudo, ele funciona como um termômetro: a primeira pergunta que faço ao paciente é se ele tem hipertensão e se ela está controlada.

O verdadeiro perigo mora onde não conseguimos enxergar sem aparelhos específicos: na nossa retina. Por meio do exame de fundo de olho e do mapeamento de retina, conseguimos perceber um reflexo direto da saúde vascular de todo o organismo. Um pico hipertensivo pode acometer os vasos retinianos e causar oclusões vasculares, que se dividem em:

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  • Oclusão de ramo ou da veia central da retina
  • Oclusão da artéria central da retina

Como consequência dessas oclusões, o paciente pode desenvolver o edema macular (um inchaço na área central da visão responsável pela nitidez) ou enfrentar uma perda visual súbita e severa devido à falta de sangue (isquemia), de forma muito semelhante ao que ocorre em um AVC cerebral.

A parceria entre Cardiologia e Oftalmologia

Em meu consultório, recebo frequentemente pacientes encaminhados pelo cardiologista para realizar exames preventivos. Essa investigação busca identificar a retinopatia hipertensiva, uma lesão nos vasos da retina causada pela pressão alta. Conseguimos mapear se essa alteração é leve ou moderada através do chamado “cruzamento patológico dos vasos” e emitir um parecer para ajustar o tratamento sistêmico.

O caminho inverso também acontece. Quando atendo um paciente com uma oclusão vascular na retina sem diagnóstico prévio, o encaminho imediatamente ao cardiologista. Esse exame minucioso serve para investigar se a causa da alteração ocular foi, na verdade, um pico de pressão alta silencioso.

Para quem tem hipertensão, a recomendação é passar por uma consulta oftalmológica completa pelo menos uma vez por ano. Esse acompanhamento é vital para monitorar a saúde dos olhos e evitar danos graves.

As complicações são reversíveis

A possibilidade de reverter a perda de visão depende do tipo de lesão sofrida pela retina. Se o problema principal for o edema macular (o acúmulo de líquido no centro da visão), dispomos de tratamentos modernos e eficazes, como as aplicações intravítreas de medicamentos antiangiogênicos ou corticoides, que diminuem o inchaço e melhoram a visão.

Por outro lado, se o pico hipertensivo causou uma isquemia (morte do tecido por falta de oxigenação), o dano pode ser irreversível. Mesmo nesses casos, o tratamento médico é urgente e obrigatório. A região que sofreu isquemia tende a produzir novos vasos sanguíneos anormais (neovasos). Esses neovasos são frágeis e podem estourar, provocando:

  1. Hemorragias intraoculares severas;
  2. Descolamento de retina;
  3. Glaucoma neovascular, uma complicação grave que pode levar à cegueira definitiva.

Para conter o avanço dos neovasos, utilizamos procedimentos como a fotocoagulação a laser. Portanto, se você tem pressão alta, não espere sentir a sua visão embaçar para procurar ajuda. Controlar a hipertensão com medicamentos e manter os exames oftalmológicos em dia são os únicos caminhos para proteger o seu bem mais precioso: a capacidade de enxergar o mundo com clareza.

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