A médica de família e comunidade Dra. Elisa Giglio explica a composição nutricional e imunológica do leite materno e orienta sobre o acompanhamento no manejo da amamentação.

A campanha do Agosto Dourado simboliza o compromisso da saúde pública com a promoção, proteção e apoio ao aleitamento materno. A cor dourada refere-se ao “padrão ouro” de qualidade nutricional, imunológica e afetiva que o leite humano representa nos primeiros anos de vida. Segundo a Dra. Elisa Giglio, médica de família e comunidade, o leite materno não se limita a um alimento físico de alta digestibilidade; ele atua como um tecido vivo e dinâmico, adaptando sua composição bioquímica às fases do desenvolvimento infantil e estabelecendo a base do sistema imunológico, do vínculo psíquico e do desenvolvimento cognitivo da criança.

CONTINUA APÓS A PUBLICIDADE

A recomendação estabelecida pelas diretrizes internacionais e pelo Ministério da Saúde é clara: o aleitamento materno deve ser exclusivo até os 6 meses de vida do bebê. Durante esse período, a criança não necessita da introdução de água, chás, sucos ou qualquer outro alimento líquido ou sólido, pois o leite materno supre integralmente todas as necessidades hídricas, calóricas, proteicas e de micronutrientes. A partir do sexto mês, inicia-se a introdução alimentar orientada e complementar, mantendo-se a amamentação no peito como fonte nutricional e afetiva até os 2 anos de idade ou mais, de forma pactuada entre a mãe e a criança.

Proteção biológica e benefícios para o binômio mãe-bebê

A passagem de anticorpos, imunoglobulinas (especialmente a IgA secretória), leucócitos e fatores bioativos através do leite materno confere uma proteção passiva primária essencial para a mucosa intestinal e respiratória do recém-nascido, cujo sistema imune ainda está em maturação.

Além de proteger contra infecções gastrointestinais e diarreias agudas, a amamentação reduz a incidência de otites mediar, otimiza o desenvolvimento das estruturas orofaciais e reduz, a longo prazo na vida adulta, os riscos de desenvolvimento de doenças crônicas não transmissíveis, como a obesidade e o diabetes mellitus tipo 2.

CONTINUA APÓS A PUBLICIDADE

Para a mulher, o ato de amamentar gera uma cascata hormonal mediada pela ocitocina e prolactina, auxiliando no retorno do útero ao seu tamanho fisiológico e prevenindo hemorragias pós-parto. Clinicamente, o aleitamento continuado atua como um fator de proteção contra o surgimento de câncer de mama, câncer de ovário e de endométrio, além de fortalecer a regulação metabólica e o vínculo afetivo.

Sinais de alerta no aleitamento e o combate à culpa materna

Embora a amamentação seja um processo natural, ela não é instintiva nem isenta de desafios. Dificuldades técnicas nas primeiras semanas de vida são frequentes e não devem ser interpretadas como incapacidade ou falha biológica da mulher. A presença de dor contínua, fissuras mamilares e lesões na aréola aponta, na imensa maioria das vezes, para a chamada pega incorreta do bebê. A pega adequada exige que a boca da criança abocanhe grande parte da aréola e não apenas o bico do peito, mantendo os lábios virados para fora (boca de peixinho), o queixo encostado na mama e o nariz livre para respirar.

Outro fator anatômico a ser investigado pela equipe de saúde da família na maternidade ou na consulta de puerpério é a presença de anquiloglossia (língua presa no recém-nascido), que restringe os movimentos da língua e impede a sucção e ordenha adequadas da mama.

Diante desses entraves, a equipe multiprofissional deve ligar os sinais de alerta quando a criança manifesta:

  • • Ganho de peso insuficiente ou perda ponderal progressiva fora das curvas de crescimento;
  • • Irritabilidade persistente e choro contínuo após as mamadas;
  • • Ausência do reflexo natural de busca (quando o toque na bochecha ou nos lábios não estimula a rotação e abertura da boca);
  • • Letargia e redução importante do número de fraldas molhadas por dia.

A Dra. Elisa Giglio ressalta a necessidade de afastar a culpa materna. Redes de apoio e acolhimento multidisciplinar são fundamentais quando o aleitamento exclusivo não é atingido devido ao retorno precoce ao trabalho, estresse emocional, dor severa ou produção insuficiente de leite. Nesses cenários, a introdução de fórmulas infantis sob prescrição médica assegura a nutrição do bebê, preservando a saúde mental da mãe e a integridade da relação familiar.

Perguntas Frequentes sobre Agosto Dourado e Amamentação (FAQ)

Por que o leite materno é chamado de o alimento “padrão ouro” para o bebê? Porque ele contém a proporção ideal de água, proteínas, gorduras, vitaminas e, principalmente, anticorpos e células de defesa que não existem em nenhuma fórmula industrializada, protegendo a criança contra infecções.

A amamentação dói normalmente nos primeiros dias ou é sinal de algo errado? A dor intensa e as lesões no mamilo não são normais. Elas indicam, na grande maioria dos casos, que o bebê está com a pega incorreta (pegando apenas o bico em vez de abocanhar a aréola) ou que apresenta alteração no freio da língua (língua presa).

Amamentar protege a mãe contra quais tipos de doenças? O aleitamento reduz comprovadamente o risco de a mãe desenvolver câncer de mama, câncer de ovário e câncer de endométrio, além de acelerar a recuperação do útero no pós-parto e ajudar no equilíbrio metabólico.

Até que idade o bebê deve receber apenas o leite materno? O aleitamento deve ser exclusivo até os 6 meses de idade. A partir dessa fase, inicia-se a introdução alimentar com frutas e comida de verdade, mantendo o peito como complemento até os 2 anos ou mais.

O que fazer se o bebê não ganha peso e a mãe precisa voltar a trabalhar antes dos 6 meses? A mãe deve procurar o apoio de uma médica de família, pediatra ou banco de leite. Caso haja indicação clínica para o uso de fórmulas infantis, a transição deve ser feita com orientação e sem sentimento de culpa, garantindo o desenvolvimento saudável da criança.

Fonte:

Dra. Elisa Giglio – Médica de Família e Comunidade

CRM-SP: 216.298/RQE-SP: 121.063 | CRM-SC: 43.490/RQE-SC: 29.852

Graduada pela Universidade de Marília (UNIMAR) com residência médica em Medicina de Família e Comunidade pela ABHU. Atua na atenção primária e integrada à saúde, unindo expertise em puericultura, manejo do aleitamento materno, geriatria, perícia médica e cannabis medicinal, com foco em escuta empática e acompanhamento longitudinal da família.

Publicidade
Publicidade