O adiamento da concepção na sociedade moderna, impulsionado por fatores socioeconômicos e profissionais, transformou a medicina reprodutiva em uma área de vanguarda e alta demanda. Segundo o Dr. Alessandro Schuffner, mestre em medicina e referência em reprodução humana, o planejamento familiar contemporâneo ganhou um forte aliado com a consolidação da fertilização in vitro (FIV). Muito além de mitigar as barreiras decorrentes da idade ou de patologias do sistema reprodutor, a técnica consolidou-se como um recurso capaz de realizar o sonho da parentalidade para produções independentes e configurações familiares diversas.
O sucesso da jornada inicia-se com um mapeamento minucioso do terreno biológico do casal, pesando os riscos e as chances de êxito da intervenção. Esse cuidado preliminar envolve a atualização vacinal da futura gestante para blindar o desenvolvimento fetal contra infecções congênitas severas. Após essa estruturação clínica, o tratamento avança para as etapas operacionais e laboratoriais de alta precisão.
A obtenção dos gametas masculinos e femininos constitui o cerne mecânico e inicial do procedimento:
- Captação de Óvulos: A mulher passa por um protocolo personalizado de estimulação ovariana medicamentosa para impulsionar o amadurecimento de múltiplos folículos. Em seguida, os óvulos são aspirados por via ultrassonográfica transvaginal sob sedação, garantindo um procedimento totalmente indolor.
- Coleta de Espermatozoides: Realizada idealmente no mesmo dia por meio de coleta convencional por masturbação. Em casos de homens vasectomizados ou portadores de azoospermia (ausência de espermatozoides no ejaculado), o laboratório dispõe de microcirurgias avançadas para extrair os gametas masculinos diretamente do epidídimo ou do tecido testicular.
O cultivo em laboratório e a biópsia do blastocisto
Uma vez coletados os materiais biológicos, o processo migra para o ambiente altamente controlado do laboratório de embriologia. Utiliza-se a técnica de ICSI (Injeção Intracitoplasmática de Espermatozoides), onde um único espermatozoide selecionado é injetado diretamente em cada óvulo maduro. No dia seguinte à fertilização, monitora-se a formação dos pré-embriões, que iniciam um processo acelerado de divisões celulares dentro de incubadoras tecnológicas de última geração, que mimetizam perfeitamente a concentração de gases e a temperatura do útero materno.
O cultivo estende-se idealmente até o quinto ou sexto dia de desenvolvimento, estágio conhecido na biologia como blastocisto. O Dr. Alessandro pontua que essa estratégia laboratorial funciona como uma seleção natural: cerca de metade dos embriões que chegam saudáveis ao terceiro dia de cultivo não possuem energia metabólica ou integridade cromossômica para atingir a fase de blastocisto. Portanto, transferir o embrião nessa etapa mais madura eleva expressivamente as taxas de sucesso e implantação por ciclo.
Atingir o estágio de blastocisto viabiliza, ainda, a realização do PGT (Teste Genético Pré-Implantacional), um recurso revolucionário para casais que carregam histórico de doenças hereditárias ou perdas gestacionais sucessivas:
- Cultivo do Embrião até o 5º Dia;
- Estágio de Blastocisto (Múltiplas Células);
- Biópsia Segura de 3 a 5 Células Externas;
- Análise de Mutações Monogênicas ou Cromossômicas;
- Transferência de um Embrião Saudável ao Útero.
Diferente do passado, quando a biópsia sacrificava uma única célula essencial no terceiro dia de desenvolvimento, a medicina moderna realiza a amostragem de três a cinco células do trofectoderma (camada celular que originará a placenta), sem interferir nas células que formarão o bebê. Essa análise genética rastreia desde alterações numéricas nos cromossomos (aneuploidias, como a Síndrome de Down) até doenças monogênicas graves (como a fibrose cística e a distrofia muscular de Duchenne), garantindo a transferência de um embrião geneticamente saudável.
Inclusão na reprodução assistida e o cenário econômico brasileiro
A medicina reprodutiva atua de forma ética e inclusiva, adaptando suas rotinas às transformações sociais em estrita conformidade com as diretrizes regulatórias vigentes. Nas configurações de casais homoafetivos femininos, o processo é fluido: realiza-se a ovodoação interna combinada ao sêmen de um banco de doadores, permitindo que uma das parceiras forneça o óvulo e a outra conduza a gestação, integrando ativamente ambas as mulheres na construção biológica do filho.
No cenário homoafetivo masculino, o fluxo demanda maior complexidade jurídica e logística, exigindo a união de duas ferramentas regulamentadas pelo Conselho Federal de Medicina (CFM):
- Banco de Óvulos: Utilização de óvulos doados de forma anônima e altruísta.
- Cessão Temporária de Útero: Conhecida popularmente como “barriga de aluguel”. No ordenamento jurídico brasileiro, a doação temporária do útero não pode ter caráter comercial. O útero deve pertencer, obrigatoriamente, a uma parente consanguínea de até quarto grau de um dos parceiros (mãe, irmã, avó, tia ou prima), diferentemente de países como os Estados Unidos ou Espanha, onde o mercado de gestação por substituição é comercialmente legalizado.
Embora o avanço tecnológico tenha barateado os custos operacionais da reprodução assistida globalmente nos últimos anos, o acesso à FIV no Brasil ainda esbarra em desafios econômicos estruturais. O mercado nacional depende diretamente da importação de insumos essenciais — cerca de 98% dos meios de cultivo, agulhas de aspiração, cateteres e hormônios são produzidos por indústrias europeias, norte-americanas ou australianas. Essa dependência cambial encarece o preço final repassado às clínicas. Contudo, a comunidade médica permanece empenhada na otimização de protocolos e no planejamento financeiro estratégico, tornando o tratamento um sonho cada vez mais viável para a população geral.
Perguntas Frequentes sobre Fertilização In Vitro (FAQ)
Como é feita a coleta de espermatozoides em homens vasectomizados na FIV? Homens vasectomizados não precisam passar pela cirurgia de reversão para realizar a FIV. O médico consegue extrair os espermatozoides diretamente do epidídimo ou do testículo por meio de punções ou microcirurgias simples no próprio consultório.
O que é o estágio de blastocisto e qual sua vantagem no tratamento? O blastocisto é o embrião no seu 5º ou 6º dia de desenvolvimento, apresentando centenas de células. A vantagem de transferi-lo nessa fase é que ele já superou os principais bloqueios de crescimento laboratorial, o que aumenta as chances de fixação no útero.
Fazer a biópsia do embrião pode causar alguma malformação no bebê? Não. A biópsia moderna é realizada no estágio de blastocisto, retirando de 3 a 5 células da região periférica (trofectoderma), que dará origem apenas à placenta. As células internas que formarão o bebê permanecem intactas e protegidas.
Doações comerciais de útero (barriga de aluguel) são permitidas no Brasil? Não. No Brasil, a cessão temporária de útero não pode envolver dinheiro. A mulher que cederá o útero deve ser uma parente consanguínea de até 4º grau (mãe, irmã, tia ou prima) de um dos parceiros do casal, seguindo as regras rígidas do CFM.
Por que o tratamento de Fertilização In Vitro ainda possui um custo elevado? O custo é influenciado pelo fator cambial e político. Cerca de 98% dos insumos laboratoriais utilizados, como os meios de cultivo líquido onde os embriões crescem, gases e medicamentos de estimulação, são importados da Europa e dos EUA.
Fonte:
Dr. Alessandro Schuffner – Médico Especialista em Reprodução Assistida.
CRM-PR: 18822 | RQE: 21939
Mestre em Medicina pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). Uma das maiores autoridades em medicina reprodutiva do país, possui sólida formação complementar em centros de excelência nos Estados Unidos. Sua prática clínica e cirúrgica integra a andrologia e a ginecologia reprodutiva, sendo referência nacional na condução de casos complexos de infertilidade conjugal e genética pré-implantacional.
