A neuropsicóloga e psicopedagoga Veronicka Seegmueller explica as causas por trás das dificuldades de alfabetização e como o diagnóstico precoce da dislexia protege a saúde emocional da criança.
Imagem Ilustrativa

O processo de aquisição da leitura e da escrita não ocorre de maneira espontânea ou puramente intuitiva no desenvolvimento humano. Segundo a neuropsicóloga e psicopedagoga Veronicka Seegmueller, enquanto o cérebro nasce biologicamente preparado para desenvolver a fala, a leitura constitui uma invenção cultural complexa. Por essa razão, a neurociência demonstra que a metodologia de ensino influencia diretamente o sucesso do aprendizado, exigindo a exposição sistemática da criança ao princípio de que cada letra possui um nome e um som específico.

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Quando uma criança apresenta o hábito crônico de trocar letras ou tentar “adivinhar” palavras durante a leitura de textos, o comportamento acende um sinal de alerta clínico. Essas manifestações podem decorrer tanto de lacunas em uma metodologia de ensino que não foi devidamente sistematizada, quanto indicar a presença de um Transtorno Específico de Aprendizagem com prejuízo na leitura e na escrita, conhecido como dislexia. Identificar essa distinção precocemente evita o desgaste e a exaustão neurológica da criança perante as cobranças escolares.

A identificação dessas barreiras cognitivas ganha um contorno especial na trajetória de Veronicka, que recebeu seu próprio diagnóstico de dislexia na fase adulta, quando já atuava na área da educação. Essa vivência pessoal a impulsionou a estruturar o método do raciocínio alfabético, uma abordagem fundamentada em evidências científicas que visa oferecer um alicerce sólido e acolhedor para que as crianças consigam decodificar os fonemas, ler com fluidez e, consequentemente, compreender o significado real do que foi escrito.

Sinais de alerta na infância e o mito das notas escolares

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Muitos pais adiam a busca por suporte especializado por acreditarem na máxima de que “cada criança tem seu tempo” ou por se basearem exclusivamente no boletim. Veronicka alerta que boas notas não significam desempenho real nos anos iniciais da alfabetização. É muito comum que as escolas adotem critérios avaliativos altamente flexíveis e positivos para incentivar os alunos, mascarando fragilidades que os pais só percebem em casa, ao observarem o esforço exaustivo e a necessidade excessiva de repetições para que o filho fixe um conteúdo simples.

Os principais sinais de desadaptação acadêmica que demandam investigação incluem:

  • Evitação e Sofrimento: Choro persistente, crises de ansiedade ou resistência física e emocional no momento de ir para a escola ou realizar tarefas de leitura.
  • Adivinhação de Palavras: O aluno lê apenas a primeira sílaba e chuta o restante da palavra com base no contexto visual, sem realizar a decodificação fonêmica.
  • Prejuízo de Compreensão: Incapacidade crônica de relatar ou assimilar o sentido do texto que acabou de ser lido em voz alta.

A intervenção clínica precoce deve ser priorizada mesmo antes de um fechamento diagnóstico formal. Pelas diretrizes neuropsicológicas, o laudo definitivo de dislexia só pode ser emitido a partir dos 9 anos de idade, após a certeza de que a criança foi exposta a uma metodologia de ensino adequada por tempo prolongado. Diante de suspeitas, a conduta recomendada é realizar uma intervenção assistida por seis meses; esse período de estimulação cognitiva revela quais dificuldades eram puramente pedagógicas e quais são estruturais e permanentes.

Avaliação multidisciplinar e limitações do atendimento online

A abordagem terapêutica para remediar os transtornos de aprendizagem exige o suporte de uma equipe multidisciplinar capacitada. O acompanhamento integrado entre psicopedagogos, neuropsicopedagogos e fonoaudiólogos permite mapear se a troca de letras decorre de falhas no processamento auditivo, dificuldades de discriminação visual ou déficits nas funções executivas do cérebro. Se os desafios persistirem de forma acentuada, a realização de uma avaliação neuropsicológica completa torna-se o passo mandatório para nortear a comunidade escolar.

Embora as ferramentas de telemedicina e as consultas virtuais tenham se expandido, Veronicka ressalta que o atendimento online para crianças pequenas possui severas limitações técnicas. As sessões virtuais geram uma sobrecarga cognitiva elevada na infância, dispersando o foco com facilidade. Na prática clínica, o formato presencial mostra-se infinitamente mais efetivo, pois permite o uso de metodologias lúdicas, jogos táteis e interações analógicas que mantêm o paciente engajado e motivado.

O maior prejuízo do diagnóstico tardio repousa na esfera psicológica. Intervir na adolescência é um processo complexo, pois o estudante já chega ao consultório com uma autoestima profundamente fragilizada devido a anos de fracasso escolar continuado, carregando rótulos de preguiça ou desinteresse. Iniciar o suporte nos anos iniciais (entre 5 e 6 anos) blinda a saúde mental, assegurando que ele desenvolva uma base de aprendizado sólida, funcional e com total autonomia emocional.

Perguntas Frequentes sobre Dificuldades de Leitura (FAQ)

Por que meu filho tenta “adivinhar” as palavras em vez de ler a frase? Esse comportamento ocorre quando a criança não automatizou a decodificação dos sons das letras. Ela lê a primeira sílaba e tenta chutar o restante da palavra pela memória visual ou pelo contexto, um sinal clássico de falha no processo de alfabetização ou dislexia.

Com qual idade é possível fechar o diagnóstico definitivo de dislexia? O diagnóstico formal de dislexia só costuma ser fechado a partir dos 9 anos de idade. É necessário que a criança já tenha passado pelo ciclo inicial de alfabetização e sido exposta a métodos de ensino adequados antes de confirmar o transtorno.

Meu filho tira notas boas na escola, ele pode ter dislexia? Sim. Nos anos iniciais, as avaliações escolares tendem a ser mais acolhedoras e conceituais, o que pode ocultar a dificuldade real. O melhor parâmetro é observar o comportamento em casa: se a criança chora para ler, troca letras ou exige esforço desproporcional para estudar.

Qual a diferença entre dificuldade de aprendizagem e dislexia? A dificuldade de aprendizagem é temporária e pode estar ligada a fatores emocionais, mudança de escola ou falta de estímulo. A dislexia é um transtorno neurobiológico permanente que afeta a forma como o cérebro processa a linguagem escrita, exigindo tratamento especializado.

O tratamento para dislexia infantil pode ser feito de forma online? Para orientações iniciais com os pais, a teleconsulta funciona. Porém, o tratamento direto com a criança deve ser prioritariamente presencial, pois o ambiente virtual gera sobrecarga cognitiva e cansaço, reduzindo a eficácia das dinâmicas lúdicas necessárias.

Fonte:

Veronicka Seegmueller – Neuropsicóloga e Psicopedagoga

CRP-PR: 08/1315-9

Psicóloga, pedagoga, neuropsicóloga e psicopedagoga com mais de duas décadas de sólida trajetória na intersecção entre clínica e ambiente educacional. Fundadora do espaço SuperCog Aprendizagem. Movida por sua vivência pessoal com o diagnóstico tardio de dislexia, dedica sua carreira ao desenvolvimento de metodologias estruturadas (como o raciocínio alfabético) para auxiliar crianças, famílias e escolas a superarem barreiras acadêmicas e cognitivas.

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