O nutricionista e treinador Everton Bottega analisa o impacto metabólico do uso indiscriminado de canetas emagrecedoras e hormônios, alertando para a perda de massa magra e a insustentabilidade dos padrões estéticos das redes sociais.

O cenário contemporâneo do emagrecimento e da busca pela performance física foi profundamente impactado pela popularização de terapias farmacológicas potentes, como os análogos de GLP-1 (tirzepatida e semaglutida). Segundo o nutricionista esportivo e treinador Everton Bottega, especialista em comportamento humano e alta performance, essas substâncias configuram ferramentas médicas valiosas para o ajuste de hábitos e controle do apetite crônico. No entanto, o avanço do mercado paralelo e a aquisição clandestina desses fármacos sem a devida prescrição e o acompanhamento de uma equipe multidisciplinar (médico, nutricionista e profissional de educação física) transformaram o que deveria ser um tratamento de saúde em um gatilho para desajustes metabólicos severos.

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O emagrecimento obtido através do uso isolado de canetas emagrecedoras baseia-se na indução química da saciedade e na consequente redução drástica da ingestão calórica diária. Quando o indivíduo perde peso de forma acelerada sem o suporte de uma dieta calculada e sem o estímulo mecânico do treinamento de força, o organismo entra em um estado de catabolismo acentuado. Na ausência de nutrientes essenciais e de aminoácidos estruturais, o corpo consome o próprio tecido muscular para suprir suas demandas vitais. Perder 10 kg na balança onde 8 kg correspondem à massa magra não configura um emagrecimento saudável, mas sim um quadro induzido de desnutrição e flacidez tecidual crônica.

O Efeito Rebote, a Sarcopenia e as disfunções tireoidianas

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A perda maciça de tecido muscular compromete a sustentabilidade metabólica do indivíduo a longo prazo. O músculo é um tecido metabolicamente ativo e o principal responsável por ditar a taxa metabólica basal (o gasto de energia do corpo em repouso). A interrupção abrupta do fármaco, sem uma reeducação de hábitos consolidada, dispara o chamado efeito rebote (efeito sanfona):

 

Uso de Caneta sem Dieta/Treino:

 

  • Perda Acentuada de Massa Magra;
  • Desaceleração da Taxa Metabólica Basal;
  • Suspensão do Fármaco e Retorno do Apetite;
  • Ganho de Peso Acelerado sob Forma de Gordura.

 

O paciente retorna ao peso inicial (ou o ultrapassa) em uma condição corporal muito pior: com maior percentual de gordura e menor quantidade de massa magra. Esse processo cíclico acelera a instalação da sarcopenia precoce (perda de força e massa muscular) e eleva de forma drástica os riscos de desenvolvimento de doenças metabólicas, como a resistência à insulina e o diabetes tipo 2.

 

Ademais, a restrição calórica extrema e severa, desprovida de cofatores vitamínicos e minerais adequados para o funcionamento celular, coloca o organismo sob estresse biológico crônico. A privação continuada de nutrientes essenciais pode desregular o eixo hipotálamo-hipófise-tireoide, culminando em quadros de hipotireoidismo secundário induzido por desnutrição, onde a tireoide desacelera suas funções hormonais numa tentativa adaptativa de poupar a energia de um corpo que não está sendo nutrido de forma correta.

 

O perigo dos esteroides e a ilusão dos físicos das redes sociais

 

A busca por resultados estéticos imediatos estendeu-se também ao ambiente das academias através do uso recreativo e indiscriminado de recursos ergogênicos hormonais, como a testosterona, o GH (hormônio do crescimento) e outros derivados esteroides. O nutricionista alerta que a cultura estética das redes sociais hipertrofiou o conceito de corpo atlético. Antigamente, o padrão de beleza atlética era representado por corpos definidos e de volume moderado; hoje, o algoritmo das redes estimula a busca por físicos hiper-musculosos extremos, tanto para homens quanto para mulheres, empurrando indivíduos saudáveis ao consumo de hormônios como se fossem suplementos inofensivos.

 

O uso crônico de hormônios sem indicação clínica e sem o rastreio rigoroso do terreno biológico pode silenciar patologias ocultas com desfechos fatais. O especialista relembra o caso grave de um jovem atleta de 22 anos que evoluiu para óbito por infarto agudo do miocárdio durante uma preparação competitiva. O indivíduo era portador de uma cardiopatia congênita (doença genética estrutural do coração) que nunca havia sido diagnosticada. Ao introduzir doses suprafisiológicas de esteroides androgênicos, o hiperestímulo elétrico e a hipertrofia cardíaca induzida atuaram como o estopim mecânico para o infarto. Indivíduos não atletas que utilizam essas substâncias por conta própria, negligenciando a dieta, os treinos e o rastreio cardiovascular, expõem-se a riscos idênticos de fatalidades cardiovasculares.

 

Corpo atlético e o corpo estético: a abordagem comportamental

 

A sustentabilidade de um planejamento físico e nutricional reside na diferenciação clara entre o “corpo estético de palco” e o “corpo atlético saudável e funcional”. Everton Bottega defende que os físicos extremos exibidos por influenciadores e atletas profissionais exigem uma rotina de privações, treinos exaustivos e manipulações químicas que são absolutamente inviáveis para indivíduos que não vivem da imagem corporal. Na prática clínica, é comum observar profissionais de outras áreas — como advogados ou engenheiros, submetidos a altas cargas de estresse corporativo e rotinas de escritório — que buscam replicar o físico de atletas de elite em seus próprios corpos.

 

Essa desconexão entre a realidade logística e a expectativa estética gera frustração crônica e abandono precoce dos tratamentos. A reabilitação desse paciente exige uma abordagem baseada em treinamento comportamental, investigando as reais motivações psicológicas por trás daquela meta estética:

 

  • Necessidade de Aceitação: Muitas vezes, a busca obstinada pelo físico extremo mascara vazios emocionais, carências e uma busca inconsciente por reconhecimento ou aprovação social.

 

  • Construção da Flexibilidade: Ao invés de impor um protocolo rígido e insustentável, a nutrição integrativa propõe a construção de um físico estético saudável, com um volume muscular aceitável e sustentável através da flexibilidade alimentar e do equilíbrio mental.

 

Alcançar a alta performance e a longevidade biológica não exige radicalismos ou proibições cegas. As ferramentas farmacológicas e suplementares estão disponíveis na medicina moderna e cumprem papéis extraordinários, desde que sua indicação seja pautada na real necessidade biológica, na dosagem correta e sob a supervisão técnica de profissionais habilitados para guiar o paciente com segurança, inteligência e plena integridade à saúde.

 

Perguntas Frequentes sobre Emagrecimento e Performance (FAQ)

 

Por que tomar canetas emagrecedoras sem fazer dieta e treino faz o cabelo cair e a pele ficar flácida?
Porque esses medicamentos tiram a fome de forma drástica. Se você não se alimentar com as metas corretas de proteínas, vitaminas e minerais, o corpo entrará em desnutrição crônica. Para poupar energia, o organismo corta nutrientes do cabelo e consome os músculos, gerando flacidez.

 

Qual a diferença real entre perder peso na balança e emagrecer? Perder peso significa apenas ver o número da balança diminuir, o que pode incluir a perda de água e de massa muscular. Emagrecer significa eliminar gordura corporal, preservando ou aumentando os músculos através de uma alimentação rica em nutrientes e treinos de força.

 

Como o uso errado de canetas emagrecedoras causa o “Efeito Sanfona”? Se você emagrece sem treinar e sem comer proteínas, você perde muitos músculos. Como o músculo é o tecido que mais queima calorias no corpo, sua taxa metabólica cai. Ao parar o remédio e voltar a comer, seu corpo gasta menos energia e acumula gordura muito mais rápido.

 

O uso de hormônios como a testosterona pode causar infarto em jovens? Sim. Os hormônios esteroides aumentam a pressão arterial, alteram o colesterol e estimulam o crescimento do músculo cardíaco. Se o jovem tiver uma doença congênita no coração não diagnosticada, o uso dessas substâncias pode disparar arritmias e infartos fatais.

 

Por que é tão difícil manter o corpo de uma musa fitness ou de um atleta? Porque os físicos extremos das redes sociais dependem de uma rotina de atleta (treinos exaustivos, pesagem rigorosa de comida e privações). Para pessoas com rotinas normais de trabalho e estresse, tentar manter esse padrão gera frustração e adoecimento mental. O ideal é buscar um físico saudável e sustentável.

 

Fonte:

 

Everton Bottega – Nutricionista Esportivo e Treinador

 

CRN-RS: 9713D | CREF: 009582G/RS

 

Profissional híbrido com atuação focada em Nutrição Esportiva, Educação Física e Treinamento Comportamental. Com uma abordagem integrativa de 360°, atua como mentor e palestrante em eventos nacionais do setor de fitness e saúde, dedicando sua prática clínica ao desenvolvimento de estratégias de alta performance física, reeducação metabólica e equilíbrio entre a saúde estética e a mente.

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