A farmacêutica e diretora técnica da CBDL, Josely Chiarella, alerta para o avanço das superbactérias, detalha a classificação AWaRe da OMS e reforça a importância do diagnóstico preciso e da abordagem One Health.

A Resistência Antimicrobiana (RAM) configura uma das crises sanitárias mais graves do século XXI, caracterizada pela capacidade adaptativa de bactérias e fungos de sobreviverem aos medicamentos desenvolvidos para eliminá-los. Segundo Josely Chiarella, diretora técnica da Câmara Brasileira de Diagnóstico Laboratorial (CBDL), o uso indiscriminado de antibióticos acelerou a seleção natural desses patógenos. Para ilustrar a gravidade da mutação biológica, na época da invenção da penicilina, apenas 7% das bactérias eram resistentes ao fármaco; hoje, esse índice atinge de 85% a 90%. Projeções indicam que, até 2030, as mortes por infecções multirresistentes poderão ultrapassar os óbitos anuais por câncer, superando a marca de 4,7 milhões de vítimas.

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Para orientar a prescrição médica e preservar os tratamentos, a Organização Mundial da Saúde (OMS) estabeleceu a diretriz AWaRe, classificando os antibióticos em três categorias estratégicas.

O Gargalo Diagnóstico e a Subversão da Prescrição

A subversão dessa ordem de prioridade ocorre frequentemente pela ausência de diagnósticos microbiológicos rápidos nos prontos-socorros. Sem a distinção imediata entre infecções virais e bacterianas cujos sintomas iniciais são idênticos, prescreve-se antibióticos preventivamente de forma incorreta. Durante a pandemia de COVID-19 (uma infecção viral severa), cerca de 72% dos pacientes receberam antibióticos sem real necessidade, agravando o cenário de resistência comunitária.

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Abordagem One Health (Saúde Única)

A RAM não se restringe aos corredores dos hospitais. O combate efetivo exige uma atuação integrada nos pilares da Saúde Única (One Health):

  • • Saúde Humana: Uso racional de antibióticos, desenvolvimento de testes rápidos laboratoriais e higienização rigorosa das mãos em UTIs (barreira principal contra patógenos oportunistas como o fungo Candida auris e bactérias multirresistentes).
  • • Saúde Animal: Controle rigoroso e restrição do uso de antibióticos como promotores de ganho de peso na agropecuária.
  • • Meio Ambiente: Descarte adequado de medicamentos vencidos para evitar a contaminação de lençóis freáticos, que atuam como veículos hídricos de difusão de resistência.

Para otimizar a contenção de surtos, a CBDL coordena projetos tecnológicos de monitoramento em tempo real por geolocalização, conectando laboratórios públicos e privados para mapear e isolar rapidamente cepas ameaçadoras em todo o território nacional.

 

Perguntas Frequentes sobre Resistência Antimicrobiana (FAQ)

O que é a Resistência Antimicrobiana (RAM)? É a capacidade adquirida por microrganismos (como bactérias e fungos) de resistirem à ação dos antibióticos, tornando os tratamentos e medicações convencionais ineficazes.

Por que não devo tomar antibiótico para curar a gripe? Gripes e resfriados são causados exclusivamente por vírus. Antibióticos combatem apenas bactérias. Seu uso em quadros virais não cura a infecção e apenas seleciona e fortalece as bactérias resistentes do próprio organismo.

Como as superbactérias se espalham nos hospitais? A transmissão ocorre majoritariamente por contato físico e superfícies. A medida mais simples e de maior impacto para conter infecções cruzadas é a lavagem criteriosa e frequente das mãos pelos profissionais de saúde.

O que é o conceito de One Health (Saúde Única)? É a compreensão científica de que a saúde humana, a saúde animal (agropecuária) e o meio ambiente estão interconectados. O controle da resistência antimicrobiana exige intervenção governamental simultânea nessas três frentes.

Como o descarte de remédios piora o cenário das superbactérias? Descartar antibióticos no lixo comum ou no esgoto doméstico contamina a água e o solo. Bactérias ambientais são expostas a essas doses residuais do fármaco, estimulando mutações genéticas e o desenvolvimento rápido de resistência.

Fonte:

Josely Chiarella – Farmacêutica e Diretora Técnica

Diretora Técnica da Câmara Brasileira de Diagnóstico Laboratorial (CBDL). Especialista na articulação de políticas de diagnóstico in vitro, vigilância epidemiológica e coordenação de projetos integrados de monitoramento em tempo real para o combate à resistência antimicrobiana no Brasil.

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