A fonoaudióloga Dra. Monica Bretas discute a neurofisiologia da disfagia mecânica por distração, mapeia as comidas juninas de maior risco e detalha o protocolo da Manobra de Heimlich.
Imagem Ilustrativa

 

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As festividades juninas trazem consigo uma das manifestações gastronômicas mais ricas e tradicionais da cultura brasileira. No entanto, o consumo dessas iguarias em ambientes festivos e de intensa interação social exige atenção redobrada. Segundo a Dra. Monica Bretas, fonoaudióloga hospitalar com mais de duas décadas de experiência, as festas juninas concentram um número elevado de alimentos com propriedades reológicas complexas que aumentam o risco de disfagia mecânica transitória (dificuldade de deglutição) e episódios de engasgo, os quais, se negligenciados, podem evoluir para uma emergência médica.

A deglutição é um processo neuromuscular altamente coordenado que envolve a transição precisa do bolo alimentar da cavidade oral para o esôfago, enquanto a laringe se eleva e a epiglote se fecha para blindar a via aérea. Em ambientes festivos, o ato de falar, rir ou correr com comida na boca quebra esse sincronismo. A distração desvia o controle cortical da deglutição, fazendo com que a via respiratória permaneça aberta no momento exato em que o alimento é ejetado, permitindo a entrada de corpos estranhos na laringe e na traqueia.

O perigo é potencializado pelas características físicas das comidas típicas deste período. Alimentos pequenos, secos ou altamente fragmentados exigem uma eficiência mastigatória elevada para a formação de um bolo alimentar coeso e seguro. Um descuido logístico na mastigação pode direcionar esses insumos diretamente para os pulmões, disparando quadros de sufocamento ou pneumonias por aspiração.

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Mapeamento de risco das comidas típicas juninas

A análise fonoaudiológica classifica as preparações tradicionais das festas juninas de acordo com o padrão de fragmentação e a consistência que oferecem durante a mastigação:

  • Pipoca e Amendoim (Grãos Soltos): Configuram o maior índice de perigo biológico. A pipoca possui uma textura mista (a parte macia e a casca seca). Quando a casca ou os grãos inteiros de amendoim e milho (frequentemente servidos soltos em pratinhos em vez da espiga tradicional) não são triturados completamente, eles escapam facilmente em direção à glote durante uma risada ou distração.
  • Paçoca e Pé de Moleque (Alimentos Secos e Esfareláveis): A paçoca esfarela instantaneamente na boca, roubando a umidade da saliva. Se o indivíduo não realizar uma mastigação cuidadosa para aglutinar o farelo, as micropartículas secas são aspiradas pela corrente de ar da respiração antes mesmo de disparar o reflexo de engolir.
  • Churrasquinho e Pinhão (Consistências Firmes): O pinhão cozido e as carnes em espetinhos exigem uma força muscular e pressão mastigatória vigorosas. Pedaços grandes deglutidos inteiros por pressa podem impactar a região da faringe, obstruindo a via aérea de forma mecânica.

Grupos de vulnerabilidade: a infância e a senescência

Embora o engasgo possa acometer indivíduos em qualquer faixa etária, dois grupos populacionais específicos exigem monitoramento contínuo e supervisão absoluta durante as refeições.

Crianças Menores de 3 Anos

  • Imaturidade neuromuscular;
  • Ausência de molares eficientes (Sarcopenia);
  • Hábito de correr e brincar comendo.

Idosos / População Geriátrica

  • Perdas dentárias estruturais;
  • Redução da força de ejeção;
  • Diminuição da sensibilidade laríngea.

As crianças menores de três anos não possuem a dentição molar completamente desenvolvida para realizar a trituração de grãos e cascas, além de apresentarem imaturidade no controle neuromuscular da laringe. A regra básica de segurança infantil proíbe o consumo de pipoca e castanhas sem a presença e supervisão direta de um adulto, que deve garantir que a criança permaneça sentada e calma enquanto se alimenta.

Na outra ponta, os idosos enfrentam os impactos da presbifagia (envelhecimento natural dos mecanismos de deglutição). Esse grupo apresenta frequentemente perdas dentárias estruturais ou próteses mal adaptadas que prejudicam a mastigação. Adicionalmente, a sarcopenia (perda de massa muscular) reduz a força de ejeção do bolo alimentar, enquanto o declínio cognitivo ou neurológico diminui a sensibilidade da laringe, tornando o engasgo um evento frequente e de difícil recuperação espontânea.

Protocolo de emergência: o que fazer em caso de engasgo

Diante de um acidente por engasgo, a velocidade e a correção da conduta adotada por quem presta o socorro são determinantes para a sobrevivência da vítima. O primeiro passo consiste em identificar o tipo de obstrução por meio dos sinais clínicos apresentados pelo indivíduo.

Engasgo Parcial (Com Tosse)

Se o alimento invadir a via aérea, mas permitir a passagem parcial de ar, o corpo ativa o reflexo de defesa da tosse. O indivíduo consegue respirar de forma ruidosa e tossir.

  • Conduta: Estimule a pessoa a tossir com o máximo de força possível para que a pressão intrapulmonar expulse o corpo estranho.
  • Proibição Médica: Nunca ofereça água, miolo de pão, farinha ou qualquer outro alimento. Ingerir líquidos ou sólidos sobre uma via aérea engasgada bloqueia o restinho de espaço que permitia a passagem do ar, empurrando o objeto fixo mais profundamente e transformando uma obstrução parcial em total.

Engasgo Total (Sem Tosse / Sufocamento)

Se o alimento bloquear completamente a traqueia, a vítima entra em asfixia aguda. Ela manifesta o sinal universal do engasgo (mãos levadas ao pescoço), não consegue falar, não consegue tossir e não emite nenhum som. O tempo é escasso, e a falta de oxigênio pode levar à perda de consciência em minutos.

  1. Chame o SAMU (Ligue 192): O acionamento do serviço médico de emergência deve ser a primeira ação. Mesmo que a manobra funcione, o paciente pode sofrer lesões internas ou apresentar mal-estar tardio, necessitando de triagem hospitalar.
  2. Cinco Golpes nas Costas: Posicione-se ligeiramente ao lado e atrás da vítima. Incline o tronco do paciente para frente e, com a região hipotenar da mão (calcanhar da mão), aplique 5 golpes firmes e vigorosos no centro das costas, entre as escápulas.
  3. Cinco Compressões Abdominais (Manobra de Heimlich): Se os golpes não funcionarem, posicione-se atrás da vítima, envolva o abdômen dela com seus braços. Feche uma das mãos em punho, com o polegar voltado para dentro, posicionando-a dois dedos acima do umbigo (na boca do estômago). Envolva essa mão com a outra e realize 5 compressões rápidas e vigorosas para dentro e para cima (em formato de “J”).

Essa sequência cíclica (5 golpes + 5 compressões) deve ser repetida continuamente até que o alimento seja ejetado ou até que o suporte médico avançado assuma o controle. Conhecer a mecânica da segurança alimentar permite celebrar as tradições juninas com alegria e plena proteção à vida.

Perguntas Frequentes sobre Engasgo e Prevenção (FAQ)

Por que rir ou conversar enquanto comemos pipoca aumenta o risco de engasgo? Porque o riso e a fala exigem a abertura da laringe para a passagem do ar. Se você tem alimentos pequenos e fragmentados na boca (como a casca da pipoca) nesse momento, o fluxo de ar puxa essas partículas diretamente para a via respiratória aberta.

Por que o milho servido no pratinho é mais perigoso do que o milho na espiga? Ao morder o milho direto na espiga, os dentes realizam uma trituração prévia e o indivíduo mastiga grão por grão. Quando o milho é servido solto no pratinho, a tendência é colocar grandes colheradas na boca, facilitando o escape de grãos inteiros.

Dar um copo de água ou miolo de pão ajuda a desentalar quem está engasgado? Não, isso é um perigo grave. Se a pessoa engasgou e o alimento foi para a via aérea, engolir água ou pão vai empurrar o objeto ainda mais para baixo ou bloquear o pouco espaço que restava para o ar passar, piorando o sufocamento.

Qual a diferença entre a Manobra de Heimlich tradicional e o protocolo atualizado? O protocolo atualizado determina que, antes de iniciar as compressões na barriga, o socorrista deve inclinar a vítima e aplicar 5 golpes firmes nas costas (entre as escápulas) com a palma da mão, seguidos por 5 compressões abdominais.

O que fazer se a pessoa engasgar, mas continuar tossindo intensamente? Apenas estimule a pessoa a tossir com força. A tosse indica que o engasgo é parcial e que o próprio corpo está tentando expulsar o alimento. Não bata nas costas se ela estiver tossindo bem e nunca ofereça nada para ela engolir.

Fonte:

Dra. Monica Bretas – Fonoaudióloga

CRFa 2: 3069-6

Doutora em Ciências em Oncologia pelo AC Camargo Cancer Center. Especialista em Disfagia Orofaríngea e Reabilitação Vocal. Com mais de 20 anos de experiência clínica em cuidados críticos e terapia intensiva, atua no Hospital Sírio-Libanês (São Paulo/SP), onde coordena o Serviço de Fonoaudiologia do Centro de Cardiologia e Reabilitação Cardiopulmonar. É sócia-fundadora da Clínica FOCOS e idealizadora do projeto nacional O Foco da Fono, sendo referência em educação em saúde pública.

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