Os transtornos mentais têm sido reconhecidos como uma das principais causas de incapacidade funcional no mundo contemporâneo. Em minha prática clínica na psicologia e na psicanálise, observo que a ansiedade ocupa um lugar de destaque nesse cenário, especialmente quando evolui de um estado adaptativo natural para uma condição crônica e debilitante.
Nesse estágio, o organismo permanece em um estado de alerta constante, o que compromete funções cognitivas essenciais como a atenção, a memória e a tomada de decisão. Com isso, atividades simples do cotidiano passam a exigir um esforço desproporcional, levando o indivíduo a evitar situações, adiar compromissos e entrar em um ciclo de esquiva que amplia ainda mais a sensação de incapacidade.
O avanço preocupante da ansiedade entre adolescentes
Esse cenário torna-se ainda mais urgente quando observamos o aumento significativo dos transtornos de ansiedade entre os adolescentes. A adolescência é uma fase marcada por transformações intensas, o que naturalmente envolve oscilações emocionais. No entanto, precisamos ligar o sinal de alerta quando o sofrimento se torna persistente.
Os principais sinais de alerta nos jovens incluem:
- Isolamento extremo e redução das interações presenciais;
- Alterações consistentes no padrão de sono e de apetite;
- Queda abrupta no desempenho escolar;
- Perda de interesse por atividades antes consideradas prazerosas.
Atualmente, fatores como a hiperexposição digital, a hiperconectividade e a comparação constante nas redes sociais têm contribuído para intensificar esse quadro. Isso exige dos pais, educadores e profissionais de saúde mental um olhar muito mais atento e diferenciado.
O impacto físico: a ansiedade inflama o corpo
Além dos prejuízos emocionais e comportamentais, a ansiedade crônica produz efeitos severos na saúde física. A ativação contínua do sistema de estresse, com a liberação prolongada de hormônios como o cortisol, pode levar o organismo a um estado de inflamação sistêmica.
Essa desregulação biológica contribui para o aumento da pressão arterial e gera uma maior vulnerabilidade a doenças cardiovasculares. Diante disso, o cuidado com a mente deixa de ser apenas uma questão subjetiva e passa a ser uma estratégia concreta de prevenção e saúde integral.
Escuta qualificada e a prevenção do esgotamento profundo
Outro aspecto que merece extrema atenção é a relação entre a ansiedade severa e o risco de suicídio. Quando o sofrimento psíquico se intensifica e se associa à sensação de desesperança, descontrole ou falta de sentido, o indivíduo pode entrar em um estado de esgotamento emocional profundo. Sinais como mudanças abruptas de comportamento e falas relacionadas à morte ou à inutilidade da própria existência nunca devem ser negligenciados.
Nesses momentos, a intervenção psicológica e o acolhimento terapêutico desempenham um papel fundamental. A psicoterapia oferece um espaço de escuta qualificada, possibilitando a elaboração do sofrimento e a reorganização psíquica.
Mais do que recuperar a funcionalidade perdida, o processo terapêutico auxilia o paciente a construir uma nova relação com o tempo, com o corpo e com o próprio viver uma trajetória menos marcada pela urgência e pelo medo, e mais sustentada pela presença e pela possibilidade de escolha.
