Em entrevista exclusiva para a campanha Julho Verde, conversei com a especialista em DTM Dra. Sílvia Murta sobre os desafios no diagnóstico e tratamento da dor orofacial.

Dor ao mastigar, dificuldade para abrir a boca, estalos na mandíbula ou dores de cabeça frequentes. Para muita gente, esses sintomas são encarados como algo “normal” ou atribuídos unicamente ao estresse do dia a dia. Mas a ciência mostra que, em muitos casos, eles fazem parte da dor orofacial crônica, uma condição complexa que pode comprometer profundamente a qualidade de vida.

CONTINUA APÓS A PUBLICIDADE

Para entender por que tantos pacientes ainda convivem durante anos com o sofrimento sem receber o diagnóstico correto, conversei com a dentista Dra. Sílvia Murta, especialista em Disfunção Temporomandibular (DTM) e Dor Orofacial.

Como médico especialista em dor, observo diariamente pacientes que chegam ao consultório após uma longa jornada de desgaste:

“A dor orofacial é um dos exemplos mais claros de como a dor crônica pode ser negligenciada. Muitos pacientes passam por diversos profissionais, realizam exames, usam medicamentos e, mesmo assim, continuam sofrendo porque a origem da dor nunca foi corretamente identificada.”

Dra. Sílvia Murta, especialista em Disfunção Temporomandibular (DTM) e Dor Orofacial.

O labirinto dos diagnósticos equivocados

CONTINUA APÓS A PUBLICIDADE

Segundo a Dra. Sílvia, considera-se dor orofacial crônica toda manifestação dolorosa persistente por mais de três meses que envolva boca, face, músculos, nervos ou a articulação temporomandibular (ATM). Ela alerta que alguns sinais merecem atenção imediata: dor intensa sem causa aparente, sensação de choque, dormência ou formigamento, limitação para abrir a boca e sintomas que persistem mesmo após tratamentos convencionais.

Outro ponto crítico levantado pela especialista é o volume de diagnósticos imprecisos:

“Ainda existe a ideia de que toda dor na mandíbula é consequência do bruxismo ou de problemas dentários isolados. Isso faz com que pacientes sejam submetidos até mesmo a procedimentos irreversíveis, como extrações desnecessárias, quando a verdadeira causa pode ser muscular, articular ou neurológica.”

Na avaliação médica, esse é um problema que ultrapassa os limites da odontologia tradicional.

Hoje entendemos que a dor crônica não depende apenas da existência de uma lesão tecidual. O cérebro passa por mudanças estruturais e funcionais na forma como processa os estímulos dolorosos. Quanto mais tempo a dor permanece sem tratamento adequado, maior a chance de ela se tornar uma doença do próprio sistema nervoso, perpetuando o sofrimento mesmo quando a lesão inicial já não explica toda a intensidade dos sintomas.

Essa compreensão biológica também explica por que a ansiedade, o estresse e os distúrbios do sono agravam drasticamente a DTM. De acordo com a Dra. Sílvia Murta, esses fatores aumentam a tensão tônica muscular, alimentam o bruxismo e reduzem o limiar de tolerância à dor.

O cuidado integrativo: mente e mandíbula conectadas

Como especialista em dor, reforço que este cenário exige uma postura clínica ampla, não existe cérebro separado da mandíbula. O paciente é um todo. Quando tratamos apenas a articulação e ignoramos o sono, a ansiedade, a depressão, o estresse e os hábitos de vida, frequentemente deixamos de atuar sobre os fatores que mantêm o cérebro em estado de alerta e alimentam a dor.

A boa notícia é que a medicina contemporânea dispõe de recursos altamente eficazes e respaldados por evidências científicas. A Dra. Sílvia destaca que o arsenal terapêutico atual engloba educação em dor, placas oclusais, agulhamento, bloqueios anestésicos, laserterapia, tratamento farmacológico direcionado e acompanhamento multiprofissional, sempre desenhado de forma individualizada.

Não existe uma única solução universal. Alguns pacientes precisam de intervenções locais; outros necessitam reabilitar o sistema nervoso, melhorar o sono, controlar fatores emocionais e recuperar a função muscular. É justamente essa sinergia multidisciplinar que entrega os melhores resultados.

Julho Verde: dor crônica não deve ser normalizada

A mensagem da Dra. Sílvia Murta neste Julho Verde mês de conscientização sobre a dor crônica é direta e encorajadora:

“Dor constante não é normal e tem tratamento. Procurar um especialista faz toda a diferença para um diagnóstico correto e para a escolha da estratégia terapêutica mais adequada, reduzindo o sofrimento e devolvendo qualidade de vida ao paciente.”

Finalizo com um alerta que considero fundamental para todos que convivem com o incômodo diário:

A pior dor é aquela que a pessoa aprende a aceitar como parte da rotina. Nenhum paciente deve conviver diariamente com dor na face, na mandíbula ou com dores de cabeça sem uma investigação adequada. Diagnóstico precoce e tratamento correto mudam histórias.

Publicidade
Publicidade