O grito na infância pode manifestar sentimentos naturais como felicidade, euforia e contentamento. No entanto, segundo a Dra. Joana d’Arc Sakai, o hábito frequente de gritar para reivindicar desejos pode se transformar em uma manifestação de poder. Quando os adultos cedem aos gritos para evitar o constrangimento social, o cérebro da criança compreende que o escândalo é uma arma poderosa para obter vantagens e ser atendida.
A desregulação emocional que gera as crises de choro e gritos frequentemente decorre de uma rotina incompatível com o ritmo biológico infantil. Obrigar a criança a acompanhar o ritmo acelerado dos adultos, como levá-la ao supermercado com fome e cansaço no final da tarde, eleva a produção de melatonina (hormônio do sono) e satura o organismo com múltiplos estímulos táteis e auditivos, desencadeando as crises.
Para reverter esse comportamento desadaptativo, a mudança deve começar na postura dos pais e educadores. Responder ao grito da criança gritando sinaliza a perda do controle do adulto sobre a relação. O caminho para a autorregulação infantil exige que o cuidador mantenha a calma e atue como a referência equilibrada do ambiente, desarmando o jogo de forças com acolhimento e firmeza.
Estratégias práticas para conter a birra e os gritos
O manejo das crises de birra exige técnicas de previsibilidade e comunicação clara que ajudem a criança a compreender o que se espera dela em cada ambiente. Falar em um tom de voz baixo e calmo força o cérebro infantil a cessar o barulho para conseguir ouvir o comando do adulto, cortando o ciclo da gritaria.
Para estruturar um ambiente seguro e previsível para o desenvolvimento, a psicanalista recomenda adotar as seguintes condutas:
- Fazer Combinados Prévios: Antes de sair de casa, estabeleça e explique didaticamente as regras de convivência para o local a ser visitado.
- Acolher os Sentimentos: Valide a frustração da criança verbalizando que compreende sua tristeza ou contrariedade, fazendo-a se sentir respeitada e ouvida.
- Olhar nos Olhos e Abraçar: Diante de uma crise intensa, retire a criança do ambiente com afeto e utilize o contato visual próximo e o abraço apertado em silêncio para acalmá-la.
O uso de mentiras, deboches ou rótulos pejorativos (como chamar o comportamento de “ridículo”) quebra o vínculo de confiança e agrava a desorganização interna do menor. A previsibilidade das rotinas e o respeito à dor do filho são os pilares centrais para que ele desenvolva a inteligência emocional necessária para se expressar sem agressividade.
Quando buscar ajuda da Orientação Parental e Psicoterapia?
Muitas vezes, a dificuldade em contornar os gritos constantes reflete a necessidade de um direcionamento técnico para a família. A orientação parental, realizada através de entrevistas clínicas com psicólogos, costuma ser suficiente para ajustar as dinâmicas e os modelos de comportamento que os pais projetam dentro de casa.
Se a criança já possui mais idade e utiliza o “grito pelo grito” de forma estruturada para se impor e assustar o ambiente, a intervenção de um psicólogo infantil torna-se indispensável. A psicoterapia investiga as raízes psíquicas e as carências comunicativas que mobilizam o sintoma, ajudando o paciente a elaborar suas frustrações.
O acompanhamento especializado ensina as famílias a lerem as entrelinhas do comportamento dos filhos. Compreender que o sintoma é um pedido de socorro ou uma falha na comunicação permite restabelecer vínculos saudáveis e assegurar um crescimento emocionalmente estável e longevo.
Perguntas Frequentes sobre Comportamento Infantil (FAQ)
Por que meu filho grita quando é contrariado? A criança utiliza o grito como uma ferramenta para impor o seu poder e testar os limites do adulto. Se ela percebe que os pais cedem à gritaria por medo do constrangimento, o cérebro dela fixa o grito como o método mais eficaz para conseguir o que quer.
O que fazer no momento exato de uma crise de grito e birra? Abaixe-se até a altura da criança, olhe nos olhos dela e fale em um tom de voz calmo e baixo. Se o ambiente estiver muito barulhento ou cheio de estímulos, retire a criança do local com carinho e acolha o sentimento dela até que ela se acalme.
Gritar com a criança para que ela pare de gritar funciona? Não. Ao gritar, o adulto demonstra que perdeu o controle emocional e valida o grito como uma forma aceitável de comunicação. A criança aprende pelo exemplo, logo, para ensiná-la a falar baixo, o adulto precisa ser o modelo de calma.
Como a rotina pode evitar que a criança fique gritando? A falta de rotina gera insegurança. Criar previsibilidade (explicar o que vai acontecer ao longo do dia) e respeitar os horários biológicos de alimentação, banho e sono reduz drasticamente o cansaço e os gatilhos emocionais da birra.
Quando a birra e o grito deixam de ser normais e exigem psicólogo? Quando o comportamento se torna a única forma de a criança interagir, prejudica o seu desempenho escolar, causa isolamento social ou quando os pais percebem que esgotaram seus recursos de manejo e precisam de orientação parental profissional.
Fonte:
Dra. Joana d’Arc Marinho Corrêa Sakai – Psicóloga e Psicanalista
CRP-SP: 06/18972-2.
Especialista de excelência com trajetória acadêmica e profissional construída na Universidade de USP (Universidade de São Paulo). Referência em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano. Dedica-se à clínica psicanalítica na compreensão de processos psíquicos desde a infância até a vida adulta, focando no fortalecimento de vínculos familiares saudáveis.
