O médico oftalmologista Dr. Daniel Kamlot detalha a necessidade de check-ups anuais para prevenção de patologias assintomáticas, diferencia o exame de refração da consulta completa e mapeia os riscos da retinopatia e do glaucoma.

A preservação da integridade visual e a prevenção de patologias oculares severas dependem diretamente da regularidade com que a população se submete a avaliações médicas especializadas. Segundo o Dr. Daniel Kamlot, médico oftalmologista com especialização em retina pela USP e membro da Sociedade Brasileira de Retina e Vítreo (SBRV), a triagem da saúde dos olhos deve ser iniciada imediatamente após o nascimento do indivíduo. Ainda na maternidade, realiza-se o exame do reflexo vermelho (conhecido popularmente como o Teste do Olhinho), ferramenta de triagem neonatal obrigatória para identificar precocemente opacidades de meios transparentes, catarata congênita ou tumores intraoculares. Esse rastreio inicial estende-se com rigor aos recém-nascidos prematuros, cujo manejo e tratamento imediatos são vitais para evitar complicações vasculares retinianas e a consequente perda funcional irreversível.

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À medida que o indivíduo avança pela infância, adolescência e maturidade, estabelece-se o critério clínico de realizar uma consulta oftalmológica completa anualmente, mesmo na ausência de sintomas refrativos (erros de grau) ou queixas visuais. Na infância, a assimetria na necessidade de óculos pode fazer com que a criança apresente um vício de refração em apenas um dos olhos. Como o olho saudável compensa a visão global, a disfunção passa totalmente despercebida pelos pais. Se esse quadro não for diagnosticado e corrigido por meio de tampões oclusivos e óculos adequados até o limiar biológico dos 7 anos de idade, o córtex visual não desenvolve a conexão correta com o olho afetado, resultando em ambliopia (olho preguiçoso), uma deficiência visual permanente.

 

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A armadilha do “Exame de Vista” comercial versus a Consulta Médica

 

Um dos principais alertas emitidos pelo especialista reside na diferenciação entre o termo popular “exame de vista” — frequentemente ofertado de forma precária no comércio óptico ou em ações de esquina — e a real propedêutica oftalmológica. Os exames de refração isolados ou gratuitos oferecidos por estabelecimentos comerciais com foco na venda de óculos contam, na grande maioria das vezes, com a atuação de optometristas. Esses profissionais não possuem habilitação legal para diagnosticar ou instituir tratamentos para patologias oculares complexas.

 

A medição do grau de refração constitui apenas a etapa inicial de uma consulta médica estruturada. O rastreio clínico de alta performance exige a execução de múltiplos procedimentos diagnósticos sequenciais na lâmpada de fenda e sob maior aumento.

Muitos estabelecimentos comerciais negligenciam a etapa de dilatação pupilar, essencial para relaxar a acomodação em jovens e permitir a entrada de luz até a periferia do globo ocular. A ausência desse procedimento compromete a precisão do grau prescrito. Além do risco de lentes incorretas, a aquisição de óculos escuros sem a devida certificação de proteção contra a radiação ultravioleta (UVA e UVB) dilata a pupila e expõe as estruturas internas do olho a uma carga ainda maior de radiação lesiva, acelerando processos degenerativos. O barato, nesse terreno biológico, custa caro à saúde.

 

Retinopatias e as manifestações de doenças sistêmicas no olho

 

O olho funciona como uma janela biológica onde o médico consegue visualizar diretamente o comportamento de vasos sanguíneos e ramificações nervosas. Por essa razão, pacientes portadores de doenças crônicas sistêmicas descontroladas — como o diabetes mellitus e a hipertensão arterial — necessitam de um protocolo de acompanhamento muito mais próximo do que a rotina anual padrão.

 

A retinopatia diabética configura-se como uma das principais causas de perda de visão em idade laboral. O grande perigo reside na sua característica assintomática nas fases iniciais (leve, moderada e severa). O paciente não manifesta dor ou baixa visual enquanto os microaneurismas e pequenos sangramentos ocorrem na periferia da retina. Contudo, na ausência de tratamento profilático, a doença evolui para a fase proliferativa, marcada pela isquemia e pelo nascimento de neovasos frágeis que se rompem. A baixa visual severa manifesta-se de forma abrupta por meio de hemorragias vítreas massivas ou descolamentos tracionais de retina. O momento ideal de intervir — utilizando fotocoagulação a laser e injeções intravítreas de agentes antiangiogênicos — é justamente quando o paciente ainda enxerga perfeitamente, o que exige consultas que podem ocorrer mensalmente em quadros graves.

 

De modo análogo, a hipertensão arterial sistêmica pode desencadear a retinopatia hipertensiva e episódios de oclusão vascular (isquemia arterial ou venosa), evento clinicamente comparado a um “AVC no fundo do olho”, com perda súbita de campo visual. Já nos pacientes portadores de alta miopia, a anatomia alongada do globo ocular estira e afina a retina periférica, favorecendo o surgimento de roturas e buraquinhos microscópicos. Se essas lesões forem detectadas preventivamente no mapeamento de retina, realiza-se o bloqueio periférico com laser de argônio em consultório, colando as bordas do tecido e evitando a infiltração de líquido vítreo que causaria um descolamento de retina agudo — complicação grave que exige intervenção cirúrgica de urgência.

 

Doenças silenciosas e os sinais clínicos de urgência médica

 

A detecção precoce de doenças assintomáticas é a única blindagem eficaz contra a perda irreversível da visão. O glaucoma lidera as estatísticas globais de cegueira incurável justamente por sua natureza silenciosa. Provocado na imensa maioria das vezes pelo aumento da pressão intraocular, o glaucoma promove a destruição progressiva e indolor das fibras do nervo óptico. A perda visual inicia-se de forma estritamente periférica, afunilando o campo de visão do paciente como um túnel. Como a visão central permanece preservada até os estágios terminais, o indivíduo só percebe a baixa visual quando a lesão do nervo já é total, momento em que a medicina não possui recursos mecânicos para reverter a perda celular.

 

Independente do calendário de rotinas, a população deve ser instruída a identificar sinais de alarme e buscar atendimento em um pronto-socorro oftalmológico imediatamente se manifestar sintomas agudos específicos. A percepção súbita de moscas volantes (pontinhos pretos ou teias flutuando e mudando de posição no campo de visão) associada a flashes de luz (fotopsias) indica tração vítreo-retiniana com alto risco de ruptura da retina.

 

O sintoma de olho vermelho, comumente automedicado com colírios lubrificantes ou vasoconstritores sob a presunção de uma conjuntivite simples, pode mascarar uma uveíte anterior (inflamação intraocular grave) ou, se associado ao uso inadequado de lentes de contato e dor ocular intensa, sugerir uma úlcera de córnea infecciosa. A dor ocular intensa associada a náuseas e olho vermelho pode indicar também uma crise de glaucoma agudo por fechamento angular. O hiato temporal entre o surgimento desses sinais inespecíficos e o diagnóstico definitivo sela a diferença entre a recuperação da acuidade visual e o desenvolvimento de sequelas estruturais permanentes.

 

Perguntas Frequentes sobre Saúde Ocular e Exames (FAQ)

 

Qual a diferença entre o teste feito na ótica e a consulta com o oftalmologista? O teste na ótica geralmente mede apenas o grau dos óculos (refração). A consulta médica com o oftalmologista é muito mais ampla: envolve exames com maior aumento na lâmpada de fenda, medição da pressão do olho e mapeamento de retina para diagnosticar doenças silenciosas que causam cegueira.

 

O que é o olho preguiçoso (ambliopia) e por que ele deve ser tratado até os 7 anos? Se uma criança tem grau em apenas um dos olhos, o cérebro ignora a imagem ruim daquele olho e desenvolve apenas o lado saudável. Se isso não for corrigido com óculos e tampão até os 7 anos de idade, a parte do cérebro responsável por aquele olho atrofia para sempre.

 

Por que o diabetes e a pressão alta exigem exames de fundo de olho frequentes? Porque o diabetes quebra os vasos da retina, causando sangramentos, isquemia e descolamento de retina (retinopatia diabética), enquanto a hipertensão pode causar entupimentos de vasos (AVC do olho). O tratamento deve ser feito antes que o paciente sinta perda de visão.

 

O que são as “moscas volantes” e quando elas se tornam um sintoma perigoso? Moscas volantes são pontos pretos ou fiapos que parecem andar pela visão quando mexemos os olhos. Se elas surgirem de repente, em grande quantidade ou acompanhadas de flashes de luz, indicam que a retina pode estar rasgando, exigindo ida urgente ao médico.

 

Por que o glaucoma é chamado de “cegueira silenciosa”? Porque o glaucoma aumenta a pressão do olho e destrói o nervo óptico de forma lenta e totalmente indolor. O paciente perde a visão das laterais primeiro, criando um efeito de túnel, e só percebe o problema quando a visão central é atingida, fase em que a perda é irreversível.

 

Fonte:

 

Dr. Daniel Kamlot – Oftalmologista

 

CRM-SP: 137.622 | RQE: 37.044

 

Médico graduado com título de especialista pelo Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO). Possui formação de excelência pelo Instituto Benjamin Constant e especialização avançada em Retina e Vítreo pela Universidade de São Paulo (USP). É Membro Titular da Sociedade Brasileira de Retina e Vítreo (SBRV). Referência nacional no tratamento clínico e cirúrgico de patologias de alta complexidade da retina, mácula e vítreo, atua ativamente na educação médica continuada como palestrante em congressos nacionais e possui ampla presença em veículos de comunicação para difusão de saúde pública e prevenção da cegueira.

 

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