A Dra. Letícia Costa analisa os mecanismos fisiológicos da Trombose Venosa Profunda (TVP) associada à imobilidade prolongada, desmistifica o uso de AAS e detalha as medidas preventivas para viajantes.

O início dos períodos de férias e festividades acompanha uma elevação expressiva no fluxo de deslocamentos de longa distância, sejam eles aéreos ou terrestres. No entanto, a perspectiva de passar horas consecutivas confinado a assentos restritos traz um alerta de saúde vascular negligenciado por muitos: a Trombose Venosa Profunda (TVP). Segundo a cirurgiã vascular Dra. Letícia Costa, membro da Sociedade Brasileira de Angiologia e de Cirurgia Vascular (SBACV), essa condição é comumente apelidada de “trombose do viajante” ou, no contexto aeronáutico, “síndrome da classe econômica”, devido ao espaço severamente reduzido entre as poltronas, que restringe a mobilidade física e sabota a hemodinâmica do retorno venoso.

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Fisiologicamente, o retorno do sangue das pernas em direção ao coração depende da contração dos músculos da panturrilha — conhecida no meio médico como o “coração periférico” ou a bomba muscular da panturrilha. Ao caminhar, essa musculatura comprime as veias profundas, impulsionando o sangue contra a gravidade.

Quando o indivíduo permanece sentado e imóvel por períodos prolongados, esse mecanismo é totalmente interrompido:

  • •  Imobilidade Prolongada / Posição Sentada;
  • •  Estase Venosa (Sangue parado nas pernas);
  • •  Aumento da Viscosidade Sanguínea;
  • •  Ativação de Fatores de Coagulação;
  • •  Formação do Trombo (Coágulo) na Veia Profunda.

Essa estase venosa crônica prolongada é o gatilho ideal para que as proteínas de coagulação se agrupem, formando um trombo (coágulo) que obstrui parcial ou totalmente o fluxo sanguíneo interno da veia afetada. Embora as diretrizes de prevenção recomendem cuidados adicionais a partir de três horas de viagem — intervalo comum em voos nacionais de São Paulo para o Nordeste ou trajetos interestaduais de ônibus —, indivíduos pertencentes a grupos de risco devem adotar medidas preventivas mesmo em percursos de menor duração.

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Mapeamento de fatores de risco e o mito do AAS profilático

Embora qualquer pessoa submetida à imobilidade prolongada possa desenvolver TVP, a probabilidade biológica é severamente amplificada em indivíduos que já apresentam um terreno de hipercoagulabilidade (tendência à formação de coágulos) ou insuficiência venosa crônica.

Os principais grupos de vulnerabilidade que exigem atenção médica vascular redobrada incluem:

  • •  Idosos e Gestantes/Puérperas: Populações que naturalmente experimentam alterações hemodinâmicas, hormonais e de compressão mecânica sobre as veias pélvicas.
  • •  Portadores de Varizes Calibrosas: Pacientes com doença venosa avançada, cujo refluxo e dilatação das veias já tornam o fluxo sanguíneo cronicamente lentificado.
  • •  Usuárias de Terapia Hormonal: Mulheres sob o uso de anticoncepcionais orais combinados ou terapia de reposição hormonal (TRH) contendo estrogênios sintéticos.
  • •  Histórico de Trombofilias: Indivíduos com alterações genéticas ou autoimunes que induzem o sangue a coagular em excesso.

No campo farmacológico, a cirurgiã vascular emite um alerta rigoroso contra a automedicação e desmistifica uma prática comum: o consumo preventivo de ácido acetilsalicílico (AAS ou Aspirina Prevent) antes de embarcar. Cientificamente, não há evidências robustas de que o AAS atue com eficácia na prevenção de trombose em veias profundas, uma vez que sua ação é prioritariamente antiplaquetária (focada no sistema arterial, como na prevenção de infartos e AVCs).

Para pacientes de alto risco ou com histórico de trombose, a prevenção exige o uso de anticoagulantes específicos (que agem diretamente nos fatores de coagulação venosa), prescritos estritamente após avaliação individualizada em consultório, e nunca de forma recreativa ou indiscriminada.

Protocolo mecânico de prevenção durante o trajeto

A melhor blindagem contra a trombose do viajante fundamenta-se em medidas físicas e comportamentais de fácil execução na rotina da viagem, focadas em manter o sangue em constante movimento.

Caminhadas Intermitentes: Estabeleça o hábito de se levantar e caminhar pelo corredor do avião ou ônibus a cada uma ou duas horas. Em viagens terrestres particulares de carro, planeje paradas regulares em postos de conveniência para esticar as pernas e caminhar por alguns minutos.

• 1 Exercícios Funcionais na Poltrona: Se estiver impossibilitado de circular, realize microexercícios sem sair do assento: faça movimentos circulares (rotação) com os tornozelos para ambos os lados, e realize movimentos de flexão plantar (elevar os calcanhares mantendo a ponta dos pés no chão e vice-versa) repetidamente para forçar a contração e o esvaziamento das veias da panturrilha.

•  2 Terapia Elastocompressiva: O uso de meias de compressão graduada atua como um fator mecânico de alta eficácia. Elas exercem uma pressão maior na região do tornozelo que diminui gradativamente em direção ao joelho, direcionando o sangue para as veias profundas e acelerando a velocidade do retorno venoso. A indicação do modelo e grau de compressão adequados deve ser realizada pelo cirurgião vascular.

• 3 Hidratação e Alerta ao Sono: Mantenha-se amplamente hidratado durante o percurso, ingerindo água de forma fracionada. O ar seco pressurizado das cabines de avião favorece a desidratação, o que aumenta a viscosidade do sangue. Além disso, evite o uso de indutores de sono ou sedativos fortes em voos longos; essas medicações induzem um estado de relaxamento muscular extremo e imobilidade absoluta por muitas horas seguidas, eliminando os micro-movimentos inconscientes que protegem as pernas.

Sintomatologia tardia e riscos de complicações

É fundamental compreender que a trombose venosa profunda raramente manifesta seus sinais clínicos imediatos no decorrer do voo ou da viagem de carro. Na imensa maioria dos casos, os sintomas surgem quando o indivíduo já se encontra em seu destino de férias ou até mesmo alguns dias após o desembarque.

A TVP costuma acometer o sistema venoso de forma unilateral (em apenas uma das pernas), e os sinais clássicos aos quais o paciente deve ficar atento abrangem:

  • •  Dor súbita e progressiva na perna, localizada principalmente na região da panturrilha, com sensação de peso ou forte câimbra que não cede ao repouso;
  • •  Inchaço (edema) perceptível em um dos membros inferiores, deixando a perna significativamente mais grossa que a contralateral;
  • •  Enrijecimento da musculatura da panturrilha (aspecto de empastamento muscular ao toque);
  • •  Aumento da temperatura local, vermelhidão (hiperemia) ou surgimento de veias superficiais mais dilatadas e aparentes sob a pele.

A gravidade e a exuberância dos sintomas dependem diretamente do calibre da veia acometida. Obstruções em veias distais de pequeno calibre (como na região do tornozelo) podem cursar com sintomas discretos que o corpo absorve espontaneamente.

No entanto, quando o trombo se instala em grandes troncos venosos (veia poplítea ou femoral), o risco de complicações graves eleva-se de forma dramática. A principal delas é a Embolia Pulmonar (TEP), que ocorre quando o coágulo se desprende da parede da veia da perna, viaja pela corrente sanguínea e obstrui as artérias do pulmão, gerando dor torácica aguda e falta de ar súbita, uma emergência médica de alto risco de mortalidade.

Identificar os sinais de alerta de forma precoce e buscar atendimento médico de urgência para a realização de um ultrassom Doppler venoso e início imediato do tratamento anticoagulante é a única conduta segura para preservar a integridade biológica do paciente e garantir o retorno seguro das férias.

Perguntas Frequentes sobre Trombose do Viajante (FAQ)

A partir de quantas horas de viagem o risco de trombose se torna preocupante?

O risco de estase venosa e lentificação do sangue torna-se clinicamente relevante em viagens contínuas de carro, ônibus ou avião a partir de três horas de duração, período no qual as medidas de mobilização e hidratação tornam-se obrigatórias.

Tomar uma aspirina (AAS) antes de voar ajuda a prevenir a trombose?

Não. O AAS atua impedindo a agregação de plaquetas nas artérias (prevenção de infarto e AVC), mas não possui eficácia científica comprovada contra a formação de coágulos no sistema venoso das pernas (trombose venosa profunda), que exige outras abordagens terapêuticas.

Como as meias de compressão ajudam a evitar que o sangue fique parado nas pernas?

As meias exercem uma pressão graduada (mais forte no tornozelo e mais suave no joelho). Essa compressão esmaga levemente as veias superficiais, direcionando o sangue para as veias profundas e acelerando a velocidade do retorno venoso ao coração.

Por que não é recomendado tomar remédios fortes para dormir em voos longos?

Sedativos e indutores de sono causam um relaxamento muscular profundo e mantêm o indivíduo em imobilidade absoluta por muitas horas, eliminando os pequenos movimentos e mudanças de posição naturais que o corpo faz para bombear o sangue.

Os sintomas de trombose aparecem sempre durante o voo?

Raramente. Na grande maioria das vezes, a dor súbita, o inchaço unilateral na panturrilha, a vermelhidão e o calor local se manifestam alguns dias depois do desembarque, já no destino das férias. Diante desses sinais, procure atendimento médico imediato.

Fonte:

Dra. Letícia Costa – Cirurgiã Vascular

CRM-PR: 40.564 | RQE: 24.203

Médica especialista e Membro da Sociedade Brasileira de Angiologia e Cirurgia Vascular (SBACV). Com mais de uma década de experiência clínica dedicada à saúde vascular, possui formação especializada em centros de referência em cirurgia vascular e endovascular de Belo Horizonte (MG). Sua prática clínica é voltada para o diagnóstico de precisão e para a aplicação de soluções tecnológicas de alta performance e procedimentos minimamente invasivos de reabilitação venosa em Arapongas (PR).

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