A fonoaudióloga Dra. Mônica Bretas explica as diretrizes de primeiros socorros para asfixia em gestantes e alerta sobre os perigos de mitos populares no engasgo.
Imagem Ilustrativa -

O engasgo é uma reação reflexa do organismo para impedir que um corpo estranho como alimentos, líquidos ou a própria saliva obstrua a via aérea em vez de seguir o fluxo natural em direção ao sistema digestivo. Segundo a fonoaudióloga Dra. Mônica Bretas, especialista no tratamento de disfagia, engasgar não deve ser considerado algo normal. Trata-se de um sinal de alerta clínico sério que, se ignorado ou manejado incorretamente, pode evoluir para desfechos fatais.

CONTINUA APÓS A PUBLICIDADE

O processo de deglutição segura exige uma coordenação neuromuscular altamente refinada entre o ato de engolir e a respiração. Padrões de ansiedade elevada, estresse emocional e o hábito de comer rápido demais rompem esse sincronismo, funcionando como gatilhos frequentes para a asfixia. No entanto, quando os episódios de engasgo tornam-se recorrentes, a investigação médica é mandatória, pois a disfagia pode ser um dos primeiros sintomas ocultos de doenças neurológicas crônicas ou de quadros de refluxo gastroesofágico severo.

Diante de um acidente, o primeiro passo é classificar a gravidade da asfixia para instituir o protocolo de salvamento correto. No engasgo leve, a obstrução da via aérea é parcial, permitindo que a vítima ainda consiga emitir sons, respirar com dificuldade ou esboçar uma reação de tosse. Nesses casos, a conduta recomendada consiste apenas em incentivar que a pessoa tussa com força, engula e respire de forma sequencial até a liberação total da via aérea, sem que o socorrista realize qualquer tipo de intervenção física.

A manobra de compressão torácica e adaptação para grávidas

CONTINUA APÓS A PUBLICIDADE

O cenário muda drasticamente diante de um engasgo grave, caracterizado pela obstrução mecânica completa da via respiratória. Nessa condição crítica, a vítima é incapaz de falar, tossir ou puxar o ar. As diretrizes nacionais e internacionais de primeiros socorros que atualizaram a antiga denominação de Manobra de Heimlich para manobra de compressões abdominais impõem uma adaptação anatômica obrigatória quando a vítima é uma gestante, visando proteger a integridade do útero e do bebê.

O protocolo de compressão adaptado para gestantes deve seguir rigorosamente as seguintes etapas:

  • Acionamento do Socorro: Ligue imediatamente para o SAMU (192). Se estiver sozinho, posicione o telefone no viva-voz ao lado do atendimento.
  • Golpes nas Costas: Posicione-se atrás da gestante, incline levemente o corpo dela para a frente e aplique cinco golpes firmes na região entre as escápulas (costas) utilizando o “talão” da mão (região dorsal próxima ao pulso).
  • Compressões Torácicas: Caso os golpes não funcionem, permaneça atrás da vítima e envolva o tórax dela com os braços. Posicione as mãos fechadas sobre a região central do esterno (osso do peito, acima da barriga) e realize cinco compressões firmes de trás para frente.

O ciclo composto por cinco golpes interescapulares e cinco compressões torácicas deve ser repetido ininterruptamente até a expulsão do corpo estranho. A Dra. Mônica Bretas ressalta um dado vital de segurança: não existe orientação para a execução de automanobra em gestantes. Se uma grávida engasgar gravemente estando sozinha, ela deve ligar para o 192, deixar a linha aberta e buscar ajuda física imediata com vizinhos ou pessoas próximas na rua, pois tentar comprimir o próprio abdômen contra superfícies é ineficaz e oferece riscos ao feto.

Erros graves e condutas proibidas no manejo do engasgo

O desconhecimento de técnicas básicas de primeiros socorros faz com que a população recorra a mitos populares perigosos que agravam o quadro de asfixia. Um dos erros mais frequentes nos bastidores domésticos é a tentativa de provocar o vômito. A indução do refluxo gástrico em um momento de desregulação respiratória pode fazer com que o conteúdo ácido do estômago seja aspirado para dentro dos pulmões, desencadeando pneumonias químicas graves e sufocamento.

Outros equívocos clássicos e perigosos no atendimento de emergência incluem:

  1. Oferecer Água: Ingerir líquidos durante uma obstrução é proibido, pois a água pode empurrar o objeto sólido para regiões ainda mais profundas e estreitas da árvore brônquica, tornando a asfixia irreversível.
  2. Levantar os Braços: O hábito de erguer os braços da pessoa engasgada não possui qualquer fundamento fisiológico ou eficácia mecânica para desobstruir as vias aéreas superiores.
  3. Introduzir os Dedos na Boca: Tentar pinçar o objeto às cegas pode empurrar o corpo estranho para a laringe, transformando uma obstrução parcial em um quadro grave de asfixia total.

Compreender o manejo correto e compartilhar informações chanceladas por especialistas é o caminho para mitigar acidentes graves em casa. A educação em saúde pública e a disseminação de protocolos de segurança na deglutição e primeiros socorros atuam como ferramentas fundamentais para preservar vidas e garantir um ambiente gestacional seguro.

Perguntas Frequentes sobre Engasgo em Gestantes (FAQ)

Como fazer a Manobra de Heimlich em uma grávida? A manobra tradicional na barriga é proibida em gestantes. Em caso de engasgo grave, as compressões devem ser feitas no osso esterno (peito), associadas a 5 golpes firmes nas costas, repetindo o ciclo até o objeto ser expelido.

Uma grávida sozinha em casa pode fazer a automanobra na cadeira? Não. Não há estudos ou diretrizes que validem a segurança da automanobra para grávidas. Se estiver sozinha, a gestante deve ligar para o 192 no viva-voz e sair imediatamente de casa para buscar ajuda física de outra pessoa.

Dar um copo de água ajuda a desengasgar a pessoa? Não, isso é um erro grave. Se a via aérea estiver obstruída, engolir água pode empurrar o alimento ainda mais para o fundo do canal respiratório ou aumentar a área de asfixia. Nunca ofereça líquidos a quem está engasgado.

O que causa o engasgo frequente em adultos e quando se preocupar? Engasgos frequentes indicam disfagia (alteração na deglutição). Podem ser causados por comer rápido e com ansiedade, refluxo severo ou ser um sinal inicial de doenças neurológicas, exigindo avaliação com fonoaudiólogo.

Qual a diferença entre um engasgo leve e um engasgo grave? No engasgo leve, a pessoa consegue tossir, falar ou emitir sons (deve-se apenas incentivá-la a tossir). No engasgo grave, a obstrução é total: a pessoa não emite som, não tosse e começa a ficar roxa, exigindo manobra de socorro imediata.

Fonte:

Dra. Monica Bretas – Fonoaudióloga

CRFa 2: 3069-6

Doutora em Ciências em Oncologia pelo A.C. Camargo Cancer Center e especialista em Disfagia e Reabilitação Vocal. Atua há mais de 20 anos no Hospital Sírio-Libanês (São Paulo), onde coordena a fonoaudiologia do Centro de Cardiologia e Reabilitação Cardiopulmonar. É sócia-fundadora da Clínica FOCOS e criadora do projeto de educação em saúde pública O Foco da Fono.

Publicidade
Publicidade