A médica pediatra Dra. Maria de Fátima Mota alerta sobre o reaparecimento do sarampo devido à queda na cobertura vacinal, detalha as sequelas neurológicas graves da encefalite e orienta sobre os esquemas de imunização de crianças e adultos.
Imagem Ilustrativa

O reaparecimento do sarampo em grandes centros urbanos com surtos registrados em municípios como São Paulo, São Bernardo do Campo e Guarulhos acendeu um alerta epidemiológico crítico na saúde pública. Considerada uma patologia viral altamente contagiosa que se encontrava praticamente erradicada do território nacional, a doença voltou a circular ativamente devido à fragilidade e à queda nas taxas de cobertura vacinal. A disseminação de desinformação e correntes antivacina fez com que muitos pais deixassem de administrar as doses de rotina em seus filhos, criando um contingente suscetível suficiente para sustentar a transmissão comunitária do vírus.

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A transmissão do vírus do sarampo ocorre por via respiratória direta, mediante a inalação de gotículas e aerossóis expelidos pelo doente ao falar, tossir ou espirrar, ou através do contato com secreções nasofaríngeas. O patógeno possui uma taxa de contagiosidade extremamente elevada, exigindo que indivíduos com suspeita diagnóstica sejam imediatamente isolados em prontos atendimentos para conter a disseminação a outras crianças e adultos.

Progressão Clínica, Complicações e Riscos de Sequelas Permanentes

O sarampo é frequentemente e erroneamente percebido pela população como um exantema febril benigno e passageiro. Na realidade, a infecção pode evoluir com complicações sistêmicas severas e risco iminente de morte.

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A evolução dos sintomas inicia-se tipicamente com um quadro prodrômico basal:

  •  • Febre alta de início súbito;
  •  • Coriza intensa, tosse seca e prostração corporal;
  •  • Hiperemia conjuntival (olhos vermelhos e sensibilidade à luz / fotofobia);
  •  • Surgimento posterior de exantema maculopapular (manchas avermelhadas que iniciam na face e atrás das orelhas, progredindo no sentido cefalocaudal para o tronco e membros).

Como não existe uma medicação antivirótica específica para combater o vírus do sarampo, o tratamento fundamenta-se estritamente no manejo sintomático e no suporte de hidratação vigorosa para evitar o choque desidratante. As complicações secundárias como pneumonias e otites exigem intervenções direcionadas.

Nos quadros mais graves, o vírus pode invadir o sistema nervoso central, deflagrando uma encefalite agudizada (inflamação e infecção das membranas do encéfalo). Essa complicação pode deixar sequelas neurológicas profundas e irreversíveis para a vida adulta:

  •  • Perda total do desenvolvimento cognitivo e da capacidade de fala;
  •  • Incapacidade motora e perda da deambulação (ficar restrito ao leito);
  •  • Necessidade de suporte de vida prolongado, como a confecção de traqueostomia para ventilação;
  •  • Comprometimento ocular severo por uveíte ou neurite óptica, podendo culminar em cegueira definitiva.

Esquema Vacinal e Estratégias de Imunização no SUS

A única ferramenta eficaz de prevenção e erradicação do sarampo é a vacinação com a vacina Triplice Viral (que protege contra Sarampo, Caxumba e Rubéola) ou Tetraviral. O Sistema Único de Saúde (SUS) disponibiliza o imunizante gratuitamente em todas as unidades básicas de saúde.

Durante períodos de surto ativo, o Ministério da Saúde autoriza a aplicação da Dose Zero para bebês de 6 a 11 meses e 29 dias. É fundamental ressaltar que essa dose extra protege o lactente precocemente, mas não substitui as doses de rotina do calendário oficial (que devem ser administradas rigorosamente aos 12 e 15 meses).

Adultos que não possuem o registro de vacinação na caderneta devem procurar o posto de saúde para atualizar a imunização. A proteção coletiva (imunidade de rebanho) depende da vacinação em massa: quando um indivíduo vacina a si e aos seus filhos, ele constrói uma barreira imunológica que protege também os grupos incapacitados de receber a vacina como gestantes e indivíduos imunossuprimidos graves.

Perguntas Frequentes sobre Sarampo e Vacinação (FAQ)

Existe remédio para curar o sarampo? Não. Não existe uma medicação específica que elimine o vírus do sarampo. O tratamento consiste no alívio dos sintomas (como antitérmicos e hidratação) e no combate às complicações associadas, como pneumonias.

A chamada “Dose Zero” substitui as vacinas de 1 ano do bebê? Não. A “Dose Zero”, dada entre os 6 e 11 meses durante surtos, serve para proteção emergencial e não anula a necessidade das duas doses do calendário oficial administradas aos 12 e 15 meses de idade.

Quais as sequelas mais graves que o sarampo pode deixar em uma criança? O sarampo pode causar encefalite (infecção no cérebro), levando à perda de movimentos, paralisia, perda da fala, necessidade de traqueostomia e até cegueira permanente decorrente de complicações oculares.

Quem já passou dos 30 anos precisa tomar a vacina do sarampo de novo? Pessoas entre 30 e 59 anos precisam ter comprovadamente pelo menos uma dose da vacina na caderneta. Se não houver registro ou a caderneta tiver sido perdida, a orientação é procurar o posto de saúde para receber a dose de atualização.

Quem não pode tomar a vacina contra o sarampo? A vacina do sarampo (vírus vivo atenuado) é contraindicada para gestantes e pessoas gravemente imunossuprimidas. Esses grupos dependem da vacinação do restante da população para ficarem protegidos.

Fonte:

Dra. Maria de Fátima Mota – Pediatra

CRM-SP: 56.127 | RQE: 35.354

Especialista em Pediatria com pós-graduação pela Universidade São Camilo e residência pela Santa Casa de Santos. Possui especializações em Neonatologia, Terapia Intensiva Pediátrica e Cuidados Paliativos. Atua como Coordenadora no Hospital Saint Patrick, Responsável Técnica (RT) da Unidade Kids da Rede Altana e proprietária da Clínica Jardim das Estrelas, dedicando-se ao atendimento integrado e humanizado da saúde infantil.

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