Com a chegada do inverno, a preocupação da maioria das pessoas se volta para a proteção da pele e do sistema respiratório contra o ar gelado. No entanto, em minha prática clínica na oftalmologia, preciso fazer um alerta importante: os olhos também sofrem silenciosamente com as mudanças climáticas desta estação. Durante os meses mais frios, a escassez de chuvas e a queda drástica na umidade relativa do ar criam o cenário perfeito para a evaporação acelerada do filme lacrimal, gerando um aumento expressivo nos consultórios de pacientes queixando-se da Síndrome do Olho Seco.
Esse desconforto ocular é agravado pela combinação de fatores ambientais típicos do inverno. O vento gelado e a exposição contínua a ambientes climatizados por aquecedores ou ar-condicionado retiram a umidade dos ambientes fechados. Para quem já possui uma predisposição biológica ao ressecamento, essas condições climáticas agem como um gatilho para crises severas de irritação ocular.
Como identificar o olho seco e diferenciá-lo de outras doenças
Muitos pacientes confundem o olho seco com quadros alérgicos ou infecciosos, o que pode levar à automedicação perigosa com colírios inadequados. Embora o olho vermelho seja um sinal comum a várias condições, as manifestações clínicas guardam diferenças cruciais.
Os sintomas clássicos do olho seco envolvem ardência contínua, vermelhidão, fotofobia (extrema sensibilidade à luz) e a sensação de corpo estranho ou “areia” nos olhos.
O impacto das telas eletrônicas e dos ambientes fechados
A rotina moderna exige o uso prolongado de computadores, tablets e celulares, um hábito que se intensifica nos dias frios de inverno. Ao fixarmos os olhos nas telas eletrônicas em ambientes com aquecimento artificial, entramos em um estado de alta concentração e passamos a piscar menos vezes por minuto.
O ato de piscar é o mecanismo natural responsável por espalhar a lágrima e lubrificar a superfície da córnea. Quando essa frequência diminui, a lágrima evapora antes do tempo, deixando a superfície ocular desprotegida e exposta ao ar seco do ambiente.
Quando o ressecamento exige uma investigação médica profunda
Quando o olho seco deixa de ser um incômodo passageiro e se torna repetitivo — não melhorando mesmo com hábitos simples —, a avaliação com o médico oftalmologista torna-se indispensável. O olho seco precisa ser investigado como um todo, analisando a qualidade da lágrima, a superfície ocular e as pálpebras.
A investigação clínica detalhada abrange três pilares fundamentais:
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- • Disfunção Palpebral (Blefarite): Alterações na base dos cílios inflamam as glândulas que produzem a camada lipídica (gordurosa) da lágrima. Sem essa gordura protetora, a água do olho evapora com extrema facilidade. Tratar a pálpebra é indispensável para curar o olho seco;
- • Doenças Sistêmicas: Condições reumatológicas crônicas, como a artrite reumatoide e a Síndrome de Sjögren, atacam diretamente as glândulas lacrimais e salivares, gerando secura severa nos olhos e na boca;
- • Uso de Medicamentos: Diversos remédios de uso contínuo (como anti-hipertensivos, anti-histamínicos e antidepressivos) possuem como efeito colateral a redução da produção de lágrima.
Para proteger a visão no inverno, adote medidas preventivas simples: lembre-se de fazer pausas conscientes ao usar telas para piscar voluntariamente, mantenha os ambientes arejados e evite a proximidade direta com aquecedores.
Principalmente, consulte o seu oftalmologista para uma prescrição precisa. Existem dezenas de tipos de colírios lubrificantes no mercado, com diferentes densidades e composições, e apenas o médico pode definir qual é o ideal para a composição específica da sua lágrima, garantindo conforto e segurança para os seus olhos durante toda a estação.
