A disfagia define-se como qualquer alteração no processo de deglutição, caracterizando a dificuldade de conduzir o alimento, líquidos, saliva ou conteúdo de refluxo desde a cavidade oral até o estômago. Segundo a Dra. Monica Bretas, fonoaudióloga hospitalar com doutorado em Oncologia pelo A.C. Camargo Cancer Center e especialista do Hospital Sírio-Libanês, existe uma tendência equivocada de normalizar engasgos e dificuldades de mastigação como alterações inevitáveis do envelhecimento. Contudo, a dificuldade frequente para engolir não é um mero descuido: trata-se de um sinal de alerta do organismo que exige investigação multidisciplinar para evitar complicações graves, como desnutrição, desidratação, pneumonia aspirativa e até o óbito.
A fisiologia da deglutição é um ato complexo que exige coordenação neuropsicomotora precisa e sincronia perfeita entre os sistemas digestivo e respiratório. Quando essa coordenação falha, o alimento ou líquido pode desviar da via digestiva (esôfago) e entrar na via aérea (laringe e traqueia), processo conhecido como aspiração laringotraqueal.
Sinais de Alerta e Critérios de Recorrência
Embora engasgar pontualmente com alimentos muito secos ou ao falar rápido seja uma intercorrência acidental comum, a repetibilidade do evento sinaliza uma alteração patológica. Se os episódios ocorrem mais de uma vez por semana, a busca por um profissional especializado torna-se indispensável.
Além do engasgo evidente, os principais sinais que indicam disfagia incluem:
- • Pigarro, tosse ou garganta “cheia” durante ou logo após as refeições;
- • Aumento excessivo do tempo de mastigação e lentidão para iniciar o ato de engolir (dificuldade de propulsão oral);
- • Sensação de alimento parado no peito ou na garganta, associada ou não à odinofagia (dor para engolir);
- • Engasgos frequentes com a própria saliva ao longo do dia ou durante a fala;
- • Mudança no tom da voz após engolir (aspecto de “voz molhada”);
- • Espirros ou soluços recorrentes associados à ingestão de alimentos ou líquidos.
Causas Multifatoriais e Manejo Terapêutico
A disfagia raramente se apresenta como uma doença isolada, funcionando predominantemente como sinal ou sintoma decorrente de múltiplas condições de saúde.
A perda natural da massa muscular pela idade (presbiofagia) pode diminuir a força e a sensibilidade dos órgãos fonoarticulatórios. Além disso, a disfagia é um sintoma precoce ou secundário frequente em sequelas de Acidente Vascular Cerebral (AVC), Doença de Parkinson, esclerose lateral amiotrófica (ELA), neoplasias de cabeça e pescoço, e refluentes gastroesofágicos severos. O uso contínuo de certos medicamentos que
causam xerostomia (redução da produção de saliva) também compromete a formação do bolo alimentar.
O tratamento efetivo da disfagia depende de uma avaliação fonoaudiológica minuciosa para mapear a causa exata (seja por déficit de força, sensibilidade, coordenação ou comportamento). A intervenção personalizada envolve desde rotinas de reabilitação muscular da orofaringe e treino de manobras protetoras de deglutição até a adequação das consistências alimentares (uso de espessantes para líquidos ou adaptação de dietas pastosas), garantindo uma alimentação segura, sem riscos respiratórios e com total preservação da qualidade de vida.
Perguntas Frequentes sobre Disfagia (FAQ)
Qual a diferença entre um engasgo comum e a disfagia? O engasgo isolado e eventual é um acidente casual. A disfagia é caracterizada quando os engasgos, tosses ou a dificuldade para mastigar e engolir ocorrem de forma frequente (recorrência superior a uma vez por semana).
Quais os principais riscos de não tratar a dificuldade de engolir? A falta de tratamento pode levar ao desvio de comida ou líquidos para os pulmões (aspiração), causando pneumonia aspirativa, além de provocar perda de peso severa, desidratação e isolamento social durante as refeições.
A perda de força para engolir é um processo normal do envelhecimento? O envelhecimento reduz a massa muscular (presbiofagia), mas engasgar com frequência nunca deve ser considerado normal. Qualquer alteração recorrente na deglutição no idoso deve ser avaliada por um especialista.
Como o fonoaudiólogo trata a disfagia? O fonoaudiólogo realiza exames clínicos para identificar a causa e aplica exercícios de fortalecimento muscular, manobras de proteção de via aérea e, quando necessário, orienta a modificação da consistência dos alimentos e líquidos com espessantes.
Fonte:
Dra. Monica Bretas – Fonoaudióloga
CRFa 2: 3069-6
Doutora em Ciências em Oncologia pelo A.C. Camargo Cancer Center. Atua há mais de duas décadas no Hospital Sírio-Libanês, onde coordena a fonoaudiologia do Centro de Cardiologia e Reabilitação Cardiopulmonar. É sócia-fundadora da Clínica FOCOS e idealizadora do projeto nacional O Foco da Fono, sendo referência no diagnóstico e reabilitação da disfagia e alterações vocais.
