Ao longo de mais de duas décadas de prática clínica, uma inquietação foi se tornando cada vez mais urgente no meu consultório. No início da minha carreira, já recebia crianças com desafios na alfabetização. Contudo, nos últimos anos, passei a observar um contingente cada vez maior de alunos encaminhados para avaliação neuropsicológica por não conseguirem ler e escrever no ritmo esperado.
A dislexia existe, é uma condição neurobiológica real e precisa ser adequadamente identificada. No entanto, sua prevalência populacional representa apenas uma parcela das crianças. Quando nos deparamos com um número massivo de alunos fracassando no processo de alfabetização, precisamos fazer uma pergunta incômoda: até onde estamos diante de uma criança com um transtorno específico de aprendizagem e até onde estamos diante de uma criança que ainda não recebeu uma metodologia adequada às suas necessidades?
Existe uma diferença enorme entre não conseguir aprender mesmo diante de oportunidades adequadas de ensino e não ter aprendido porque a forma de ensinar não foi suficiente.
Se existe dúvida, observamos a resposta à intervenção
Na minha prática, quando precisamos diferenciar uma lacuna pedagógica de um transtorno neurobiológico, solicito às famílias um período de aproximadamente seis meses de intervenção intensiva e direcionada com o Raciocínio Alfabético.
Intervir intensamente produz informação clínica e pedagógica valiosa:
- • Evolução Consistente: Se a criança passa a receber um ensino estruturado e responde rapidamente, o peso principal estava na lacuna pedagógica anterior.
- • Dificuldade Persistente: Se, mesmo diante de um ensino explícito, frequente e sistemático, a criança mantém dificuldades desproporcionais, fortalece-se a necessidade de investigação para um transtorno específico de aprendizagem.
Método fônico não é apenas ensinar o som das letras
Alfabetizar com base em evidências científicas vai muito além de perguntar “qual é o som desta letra?”. Exige desenvolver a consciência fonêmica a capacidade de perceber, segmentar, unir, retirar e manipular conscientemente os sons dentro das palavras.
Além disso, leitura e escrita são processos com demandas cognitivas distintas: a leitura parte do código gráfico para o som e o significado; a escrita parte da intenção comunicativa para a análise sonora e a convenção ortográfica. Por isso, a escrita não surge espontaneamente apenas porque a criança aprendeu a ler: ela precisa ser ensinada passo a passo.
Os 7 pilares do Raciocínio Alfabético
Para organizar esse percurso de forma explícita, progressiva e cumulativa, estruturei o Sistema Raciocínio Alfabético em sete pilares fundamentais:
1 – Consciência Fonológica e Fonêmica: Manipulação intencional da estrutura sonora da linguagem;
2 – Princípio Alfabético e Correspondência Fonema-Grafema: Ensino explícito da relação entre sons e letras;
3 – Decodificação, Codificação e Construção da Palavra: Leitura e escrita integradas desde a base;
4 – Processamento Visual e Organização do Olhar: Atenção à ordem das letras e rastreamento visuoespacial;
5 – Fluência, Automatização e Prosódia: Liberação de recursos cognitivos para a compreensão;
6 – Ortografia, Morfologia e Padrões da Língua: Reconhecimento de prefixos, sufixos e famílias de palavras;
7 – Vocabulário, Linguagem e Compreensão: O objetivo final e indispensável da leitura.
Não podemos exigir que os professores realizem uma alfabetização baseada em evidências sem oferecer-lhes formação suficiente para compreender e aplicar essa ciência. Transformar a educação brasileira exige formar quem ensina, garantindo que alfabetizar seja um ato intencional de ensinar o raciocínio que permite à criança dominar o sistema escrito.
