O Brasil enfrenta uma crise silenciosa, mas de proporções alarmantes, no campo da saúde mental. Um levantamento histórico da Organização Mundial da Saúde (OMS) apontou o país como o território com o maior número de pessoas ansiosas do mundo: são 18,6 milhões de brasileiros convivendo com o transtorno, o que representa 9,3% de toda a população nacional.
Embora os impactos atinjam diferentes faixas etárias, os jovens são os mais vulneráveis. Dados do Ministério da Saúde, obtidos com exclusividade pelo jornal Estadão, revelam que o volume de internações hospitalares associadas ao estresse e à ansiedade em adolescentes e jovens — na faixa dos 13 aos 29 anos — disparou 136% no intervalo entre 2013 e 2023.
A psicóloga Elisa Pereira falou sobre os fatores que desencadeiam a patologia e explicou os métodos de tratamento da doença.
O limiar entre a reação natural e o transtorno incapacitante
Biologicamente, a ansiedade funciona como uma reação natural e necessária do corpo diante de situações que envolvem expectativa, perigo ou preocupação. Trata-se de um mecanismo de defesa essencial, estruturado para preparar o indivíduo para enfrentar desafios cotidianos ou fugir de ameaças iminentes.
O problema se estabelece quando essa resposta emocional torna-se frequente, desproporcional ou contínua, gerando sofrimento crônico e limitando a rotina. “Muitas vezes, a ansiedade não possui apenas uma causa, mas sim um conjunto de fatores emocionais e físicos”, aponta Elisa Pereira. Entre os principais gatilhos mapeados na rotina contemporânea estão:
- Excesso de cobranças pessoais e estresse no trabalho ou estudos;
- Problemas e conflitos nos relacionamentos familiares;
- Traumas preexistentes e baixa autoestima;
- Insegurança e medo persistente em relação ao futuro;
- Rotina acelerada, privação de descanso e fatores genéticos.
Sintomas físicos e emocionais: como reconhecer os sinais
Identificar a evolução da ansiedade exige atenção aos sinais comportamentais e corporais. Manifestações como preocupação excessiva, pensamentos acelerados, sensação de alerta constante e dificuldade crônica para relaxar indicam que a mente opera sob sobrecarga.
No corpo, o transtorno se traduz em sintomas físicos claros, como taquicardia (coração acelerado), tremores, suor frio, falta de ar e tensão muscular generalizada. A médio e longo prazo, o quadro provoca insônia, cansaço constante, irritabilidade extrema e declínio no rendimento acadêmico e profissional, além do isolamento social, onde o indivíduo passa a evitar ambientes públicos e interações de forma preventiva.
O tratamento profundo através da Terapia do Esquema
A busca por suporte psicológico torna-se obrigatória a partir do momento em que a ansiedade passa a interferir nas atividades básicas do dia a dia ou quando ocorrem crises de pânico. No campo terapêutico, a abordagem da Terapia do Esquema oferece uma investigação profunda e estrutural, indo além do controle imediato dos sintomas.
Nessa linha de tratamento, a ansiedade é compreendida a partir de padrões emocionais desadaptativos estruturados durante a infância e a adolescência. Experiências precoces ligadas ao medo, rejeição, abandono, insegurança ou cobrança parental rígida criam “esquemas” automáticos que ditam a forma como a pessoa interpreta e reage aos desafios da vida adulta.
A psicoterapia atua na identificação e quebra desses ciclos repetitivos, auxiliando o paciente a reconhecer seus gatilhos, desarmar a autocrítica destrutiva e desenvolver mecanismos de enfrentamento saudáveis, fortalecendo a segurança interna e o autocuidado.
Estratégias diárias e hábitos para mitigar a ansiedade
O controle e o domínio da ansiedade não pressupõem a extinção completa dessa emoção, mas sim o aprendizado de formas mais equilibradas de gerenciá-la. O restabelecimento da qualidade de vida envolve a associação do tratamento clínico a mudanças sólidas no estilo de vida.
A adoção de atividades físicas regulares e a organização da rotina diária são fundamentais para regular a química cerebral. Adicionalmente, praticar técnicas de respiração guiada, reduzir o nível de autocobrança, otimizar a qualidade do sono e reservar momentos de descanso intencional atuam como barreiras protetivas contra as crises. Dialogar abertamente sobre os sentimentos e manter a psicoterapia regular consolidam-se como os pilares para uma recuperação duradoura.
Perguntas frequentes sobre ansiedade e psicoterapia (FAQ)
Como diferenciar uma preocupação comum de uma crise de ansiedade?
A preocupação comum é focada em problemas reais e cessa após a resolução do evento. Já a crise de ansiedade surge de forma avassaladora, muitas vezes sem motivo aparente, provocando sintomas físicos intensos como falta de ar, taquicardia, tremores e a sensação de perda de controle ou morte iminente.
Por que as internações por ansiedade cresceram tanto entre os jovens?
Dados do Ministério da Saúde mostram um aumento de 136% em internações na faixa de 13 a 29 anos. Esse fenômeno está ligado a uma combinação de fatores modernos, como a rotina hiperconectada e acelerada, a cobrança excessiva por performance nos estudos e no trabalho, a insegurança sobre o futuro e a redução do tempo de descanso de qualidade.
Qual é a diferença da Terapia do Esquema para as outras terapias?
A Terapia do Esquema é focada em identificar e reestruturar padrões emocionais profundos (esquemas) gerados por necessidades não atendidas na infância. Ela une o acolhimento afetivo ao autoconhecimento cognitivo e a técnicas práticas, permitindo ao paciente identificar a raiz de sua ansiedade crônica nos relacionamentos e comportamentos atuais.
Tomar remédios é a única forma de controlar a ansiedade grave?
Não. Embora em casos graves o suporte psiquiátrico com medicações possa ser necessário para estabilizar o paciente, a psicoterapia é o tratamento definitivo. Os medicamentos atuam nos sintomas físicos e químicos imediatos, mas apenas a terapia trata as causas emocionais, os gatilhos e os padrões de pensamento que geram o transtorno.
Fontes:
Organização Mundial da Saúde (OMS)
Dados epidemiológicos do Ministério da Saúde / Levantamento Estadão (2013-2023).
Elisa Pereira – Psicologa | CRP: 06/45961-4
Psicóloga clínica com 25 anos de experiência. Especialista em Psicoterapia Corporal e Vegetoterapia Caracteroanalítica pelo Instituto Sedes Sapientiae, Formação em Neuropsicologia Aplicada à Neurologia Infantil pela Unicamp, Especiasta em Terapia do Esquema, Psicologia do Esporte pelo CEPPE.
Mentora de Adultos e Casais, Palestrante em Empresas e Eventos e Criadora do Curso “Domine sua Ansiedade”.
