Neste artigo explico sobre como a alta sensibilidade e a intensidade emocional acompanham a inteligência, destacando a importância do acolhimento familiar e educacional.
Imagem Ilustrativa

No Dia Internacional da Superdotação, talvez a maior reflexão que devamos fazer não seja sobre a inteligência em si, mas sobre a sensibilidade. Existem crianças que parecem viver com a alma exposta: tudo chega até elas com mais intensidade. As perguntas são profundas, a curiosidade é insaciável e as emoções parecem transbordar. Uma injustiça dói, uma crítica permanece e a percepção do mundo é aguçada. É como se caminhassem pelo mundo como um “fio desencapado”.

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Como neuropsicóloga e psicopedagoga, vejo que enquanto muitos enxergam apenas uma criança inteligente, existe ali um cérebro que funciona de maneira diferente e um coração que, frequentemente, sente mais do que consegue explicar.

A superdotação é uma condição do neurodesenvolvimento que vai muito além do alto desempenho escolar. Trata-se de um funcionamento cerebral caracterizado por uma capacidade acima da média para estabelecer conexões, compreender conceitos complexos e criar soluções originais. Reduzi-la a um alto quociente de inteligência (QI) é ignorar a forma como essa pessoa interpreta o mundo e vivencia suas emoções.

O peso dos rótulos e a dor do não pertencimento

Durante meus anos de atuação clínica e no SuperCog, conheci inúmeras crianças que chegaram ao consultório carregando rótulos pesados: “faz perguntas demais”, “contesta tudo”, “parece desmotiva” ou “é intensa”. Na maioria das vezes, não eram crianças desobedientes, mas sim mentes cujo modo de pensar não encontrava espaço para existir em uma escola organizada para atender ao aluno médio.

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Quando esse potencial não é identificado, a curiosidade vira indisciplina e o pensamento crítico é visto como desafio à autoridade. Com isso, surge uma das maiores dores vividas pela criança superdotada: perceber muito cedo que ser quem é pode custar a aceitação do grupo.

Muitas aprendem a esconder o que sabem, deixam de perguntar ou até erram de propósito para não parecerem diferentes, acreditando que há algo de errado consigo mesmas. Nenhuma criança deveria precisar diminuir sua inteligência para conseguir pertencer.

Protegendo o “fio desencapado”

A superdotação também se manifesta em emoções intensas, forte senso de justiça, grande empatia e angústia diante de incoerências que os adultos costumam naturalizar. A metáfora do “fio desencapado” nos mostra algo fundamental: o sofrimento não nasce da superdotação, mas sim da incompreensão, do isolamento e da ausência de oportunidades.

Um fio desencapado não é um defeito; ele apenas precisa de proteção, cuidado e um ambiente seguro para cumprir seu propósito. Reconhecer uma criança superdotada não é colocá-la em um pedestal, mas entender suas necessidades educacionais e emocionais específicas:

1 – Ela precisa ser desafiada intelectualmente;

2 – Precisa brincar e ser acolhida;

3 – Precisa aprender a lidar com a frustração e construir vínculos seguros.

No consultório, costumo reforçar às famílias que potencial não garante desenvolvimento. O que transforma potencial em realização é o encontro da criança com adultos que acreditam nela, compreendem seu funcionamento e oferecem oportunidades para florescer.

Neste Dia Internacional da Superdotação, devemos fazer menos perguntas sobre o quanto essas crianças sabem e muito mais sobre como elas têm se sentido. Nenhuma inteligência floresce sozinha, e nenhuma criança deveria viver exposta ao julgamento quando tudo o que precisava era encontrar um lugar onde pudesse ser compreendida.

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